Mais do que discursos sobre juventude, precisamos de criar condições para que jovens angolanos com talento, resiliência, determinação, visão, ambição, patriotismo e vontade de transformar o país possam encontrar espaço para realizar aquilo em que acreditam — dentro da legalidade e com base no mérito.
O Executivo deve ser capaz de identificar, apoiar e proteger, dentro das regras do Estado de Direito, jovens que tenham um percurso verificável de superação, trabalho e compromisso com Angola. Não apenas porque podem construir negócios ou criar empregos, mas porque podem tornar-se referências para outros jovens.
Precisamos de referências que mostrem que é possível sair de baixo, sonhar, trabalhar, errar, aprender, insistir e vencer.
Precisamos de uma Angola onde um jovem possa olhar para outro jovem e dizer: “Se ele conseguiu, eu também posso tentar.”
Devolver aos jovens a liberdade de sonhar
A transformação digital trouxe uma oportunidade extraordinária.
O surgimento das startups, das plataformas digitais, da economia criativa e de novos modelos de negócios tornou possível que um jovem, com uma boa ideia, conhecimento e determinação, consiga criar algo que ultrapasse as fronteiras da sua cidade e, em alguns casos, do próprio país.
Mas antes de qualquer financiamento, antes de qualquer programa público e antes de qualquer reconhecimento, existe uma coisa fundamental: a liberdade para sonhar e escolher.
Primeiro precisamos permitir que os jovens sonhem. Depois, precisamos permitir que escolham. E, finalmente, precisamos criar condições para que possam experimentar, errar, aprender e tentar novamente.
O progresso não acontece sem esse percurso.
A independência também começou como um sonho
Senhor Presidente,
A independência de Angola também foi, antes de tudo, um sonho.
Foi um sonho de homens e mulheres que imaginaram uma Angola independente antes de essa realidade existir.
A independência não nasceu simplesmente porque existiam organizações políticas. Antes delas existia uma aspiração, um propósito e uma vontade de construir uma realidade diferente.
Os homens e mulheres daquela geração fizeram as suas escolhas, encontraram os movimentos e os caminhos através dos quais procuraram concretizar aquele sonho.
O sonho veio primeiro. As escolhas vieram depois.
E a história encarregou-se de mostrar as consequências, os erros, os acertos e os sacrifícios daquele percurso.
Angola passou por momentos extremamente difíceis. O conflito interno deixou marcas profundas, mas também produziu aprendizagens históricas. Hoje conhecemos melhor a nossa realidade, compreendemos melhor a geopolítica, desenvolvemos relações com diferentes parceiros internacionais e adquirimos experiências que fazem parte da construção do Estado angolano contemporâneo.
Esta é uma das características do progresso: aprendemos com o percurso.
Não estou, evidentemente, a defender que a juventude tenha de repetir os erros ou os sofrimentos do passado.
Estou apenas a dizer que cada geração enfrenta os problemas do seu próprio tempo e precisa de liberdade e responsabilidade para procurar as suas próprias soluções.
Os desafios de hoje exigem os sonhadores de hoje
Hoje, Angola enfrenta desafios económicos, sociais e tecnológicos.
Temos um ciberespaço cada vez maior. Temos uma economia digital em expansão. Temos startups, criadores de conteúdo, plataformas, empresas tecnológicas, profissionais independentes e jovens que estão a descobrir novas formas de produzir valor.
A pergunta é simples: Quem poderá explorar melhor essas oportunidades senão os jovens que nasceram e cresceram dentro desta nova realidade?
Não podemos querer uma juventude inovadora e, ao mesmo tempo, criar um ambiente onde apenas determinadas relações, filiações ou proximidades institucionais sejam percebidas como portas de entrada para oportunidades.
O jovem precisa saber que pode valer pelo que sabe. Pelo que construiu. Pelo que consegue demonstrar. Pela sua capacidade. Pelo seu carácter. Pelo seu percurso. Pela sua competência.
Precisamos separar dois mundos
Senhor Presidente,
Não estou a dizer que devemos eliminar as relações, as conveniências ou as alianças que fazem parte da política e da governação.
A política precisa de confiança. A administração pública precisa de critérios próprios. Os cargos públicos exigem responsabilidades específicas.
Mas existe uma diferença fundamental entre governar um país e realizar um sonho empresarial ou tecnológico.
A conveniência pode ter o seu espaço na construção de consensos políticos e institucionais. Mas a competência é indispensável para transformar ideias em produtos, empresas, tecnologias, empregos e inovação.
Por isso, Angola precisa de estabelecer uma separação cada vez mais clara entre o sector público e o sector privado.
O sector privado deve ter espaço para crescer com autonomia, concorrência, transparência e mérito.
Não devemos criar um ambiente em que os mesmos actores tenham de estar necessariamente ligados aos dois mundos para conseguir realizar grandes projectos.
O jovem empreendedor deve poder construir uma empresa sem precisar de uma filiação partidária. O jovem tecnológico deve poder desenvolver uma plataforma sem depender da simpatia de um governante. O jovem inventor deve poder apresentar uma solução porque ela funciona — e não porque conhece alguém. O jovem empresário deve poder competir porque tem capacidade para competir.
É assim que se constrói confiança.
Uma Angola onde o mérito também seja uma porta de entrada
Senhor Presidente,
Precisamos de uma Angola em que a juventude possa olhar para o futuro sem acreditar que o seu destino está previamente condicionado pelas suas relações.
Uma Angola onde um jovem possa dizer: “Eu não sei quem estará comigo, mas sei aquilo que sou capaz de construir.”
E, se a sua ideia for boa, se o seu projecto for legal, se o seu percurso for verificável e se existir capacidade para executar, que encontre instituições dispostas a ouvi-lo.
Não necessariamente para lhe oferecer privilégios. Mas para lhe oferecer uma oportunidade justa.
Essa diferença é fundamental.
Apoiar um jovem não significa entregar-lhe o sucesso. Significa permitir que ele tenha a oportunidade de tentar.
Se falhar, que aprenda. Se acertar, que cresça. Se crescer, que empregue outros. Se criar riqueza, que contribua para o Estado. E se se tornar referência, que inspire milhares de outros jovens.
O sonho de um jovem pode transformar uma geração
Senhor Presidente,
Angola é muito maior do que as estruturas políticas que hoje conhecemos. É maior do que Luanda. É maior do que os partidos. É maior do que os governantes. É maior do que qualquer geração.
Existe uma Angola que ainda não conhecemos.
Uma Angola que está na cabeça dos jovens que estão a desenvolver soluções tecnológicas, criando empresas, inventando produtos, produzindo cultura, desenvolvendo plataformas, estudando ciência, criando empregos e imaginando um país diferente.
É essa Angola que precisamos deixar nascer.
Os jovens precisam de espaço para sonhar. Precisam de espaço para escolher. Precisam de espaço para errar. Precisam de espaço para aprender. Precisam de espaço para competir.
E, sobretudo, precisam saber que podem construir o seu futuro independentemente da sua filiação partidária ou da proximidade que tenham — ou não tenham — com os governantes.
O Estado deve criar as condições. As instituições devem garantir as regras. O sector privado deve ter liberdade para criar. E os jovens devem ter a oportunidade de transformar os seus sonhos em realidade.
Talvez essa seja uma das maiores formas de patriotismo que podemos oferecer à próxima geração: não dizer aos jovens qual sonho devem ter, mas garantir que tenham liberdade para sonhar e condições para tentar realizá-lo.
Porque uma Angola melhor não será construída apenas por quem ocupa cargos públicos. Será também construída por aqueles que hoje ainda não têm cargo algum, mas que possuem uma ideia, uma visão e a coragem de acreditar que podem fazer alguma coisa pelo seu país.
Deixemos os jovens sonhar.
O futuro de Angola pode estar precisamente no sonho que hoje ainda parece impossível.
Por Angola. Pelos jovens. Pelo futuro.
Por: Tomás Alberto

