Quarta, 09 de Setembro de 2026
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Quarta, 09 Setembro 2026 16:53

China e EUA em África: quem construiu, de facto, o continente?

Há uma pergunta que raramente se coloca com a devida honestidade nos debates sobre África e as grandes potências: quem, na prática, ajudou o continente a construir aquilo que hoje se vê — as estradas, os portos, as centrais eléctricas, os caminhos-de-ferro? A resposta, por mais incómoda que seja para quem prefere discursos sobre valores em vez de betão, aponta claramente para a China.

Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se como o parceiro moral de África: ajuda humanitária, programas de saúde pública, discursos sobre direitos humanos, campanhas de combate à corrupção. Ninguém nega que estes programas salvaram vidas e ajudaram a mitigar crises sanitárias em várias partes do continente. Mas é preciso perguntar o que resta, em termos estruturais, desse apoio. Que rodovia, que porto, que rede eléctrica de dimensão nacional foi construída com dinheiro americano?

A verdade é desconfortável: nenhum país africano se industrializou, se conectou ou se electrificou com dólares vindos de Washington. Ao mesmo tempo, os mesmos Estados Unidos que discursavam sobre democracia e direitos humanos estiveram, ao longo da Guerra Fria e depois dela, associados a golpes de Estado e a apoios a regimes autoritários em várias regiões de África, sempre que tal serviu os seus interesses geoestratégicos. A contradição entre o discurso e a prática é um dos grandes silêncios da política externa americana no continente.

A China, por seu lado, seguiu um caminho diferente — não por altruísmo, mas por cálculo pragmático que, ainda assim, produziu resultados tangíveis. Adoptando publicamente uma política de "não interferência" nos assuntos internos dos países parceiros, Pequim optou por financiar aquilo que os próprios governos africanos identificavam como prioritário: infraestrutura. Estradas que ligam capitais ao interior, ferrovias que escoam minério até aos portos, redes eléctricas que chegam a zonas antes esquecidas, estádios que simbolizam, ainda que de forma imperfeita, a capacidade de um Estado erguer algo visível para os seus cidadãos. Para muitos africanos, este é o critério mais simples e mais honesto de avaliação: quem construiu.

Angola bateu primeiro à porta errada

Este contraste não é uma abstracção académica — está documentado no percurso do próprio Estado angolano. Em fevereiro de 2002, terminava a guerra civil que durara 27 anos. Duas semanas depois, uma delegação do governo embarcava rumo a Washington, à procura de capital para reconstruir o país. Entre os que integravam essa delegação estava Manuel Domingos Vicente, mais tarde vice-presidente da República e, antes disso, presidente da Sonangol — ou seja, alguém que esteve, como poucos, dos dois lados da equação entre a indústria petrolífera e o poder político.

Anos depois, em entrevista, Vicente recordaria com clareza o desfecho dessa primeira tentativa: "Não conseguimos convencer o governo americano a dar-nos essa ajuda." A delegação bateu também às portas do Clube de Paris, do Banco Mundial e do FMI. Segundo Vicente, nenhuma dessas instituições se envolveu verdadeiramente com o pedido angolano: "Não nos deram atenção. Por isso, fomos para o Oriente."

Foi assim, e não por qualquer inclinação ideológica inicial, que nasceu uma das relações de financiamento mais escrutinadas da literatura sobre a China em África. Angola não escolheu Pequim por afinidade — escolheu-a porque foi a única porta que se abriu depois de todas as outras se terem fechado.

O caso angolano

O resultado desse encontro está hoje espalhado pelo território angolano. Foi com crédito chinês, garantido por petróleo, que o país reconstruiu parte substancial da sua rede rodoviária, ferroviária, portuária e energética. Foi esse financiamento que tornou possível o programa das Centralidades espalhadas pelo país — habitação e infraestrutura urbana que, sem capital externo, dificilmente teriam saído do papel. Nenhum plano de reconstrução angolano foi erguido com dólares americanos. Esta não é uma opinião ideológica; é um facto verificável em qualquer inventário de obras públicas do país nas últimas duas décadas.

"Foi um erro nosso"

Seria, no entanto, desonesto transformar este argumento numa defesa cega da China. O crédito chinês não é uma dádiva sem custos, e a forma como foi gerido em alguns países africanos — incluindo, nalguns episódios, o próprio Angola — revelou as fragilidades das próprias elites locais. Houve casos em que dinheiro destinado a infraestrutura foi desviado através de esquemas de corrupção, ou aplicado em obras sobredimensionadas, mal planeadas, que nunca chegaram a beneficiar directamente as populações.

É precisamente aqui que o testemunho de Vicente ganha um valor incomum. Questionado se Pequim se tornou mais exigente com Angola nos momentos em que o país estava mais fragilizado, ele não hesita em rejeitar a ideia de que a China tenha mudado de comportamento — e devolve a responsabilidade a Luanda: "Acho que eles não mudaram nada no nosso relacionamento. Diria que houve erros. Sim, houve. Mas foi um erro nosso, não deles. Porque não defendemos os nossos interesses com firmeza. Eles jogam e agem como sempre agiram. Tentam tirar o máximo proveito possível. É preciso saber definir limites."

Vindo de alguém que geriu esta relação em dois lugares distintos do poder — na petrolífera estatal e depois na vice-presidência — esta é uma admissão rara. Não isenta a China de responsabilidades nos casos em que os créditos foram mal aplicados; mas recusa a narrativa fácil de que os países africanos foram simplesmente vítimas passivas de uma potência predadora. A China ofereceu a ferramenta. A responsabilidade de a usar bem — ou de a desperdiçar — foi sempre africana.

Duas potências, duas lógicas

No fundo, o contraste entre Washington e Pequim em África não é apenas um contraste entre dois modelos de cooperação: é um contraste entre duas lógicas de poder. Os Estados Unidos investiram em influência através de valores e de assistência pontual, mas raramente em capital físico duradouro; a China investiu em infraestrutura como forma de garantir acesso a recursos e mercados, sem se preocupar em avaliar o carácter dos regimes com quem negociava. Nenhum dos dois modelos é puro nem desinteressado. Mas quando a métrica é o desenvolvimento material visível — as estradas que se percorrem, os comboios que circulam, a luz que chega às casas —, é difícil argumentar que os Estados Unidos tenham feito, em África, aquilo que a China fez.

A questão que fica para os próprios africanos não é, por isso, escolher um parceiro "bom" contra um parceiro "mau". É perceber, como o próprio Vicente admite sobre a experiência angolana, que nenhuma potência externa vai construir o continente por altruísmo, e que o verdadeiro teste de maturidade política de África será, cada vez mais, a sua capacidade de negociar em pé de igualdade, fiscalizar o que recebe e garantir que o crédito — seja ele chinês, americano ou de qualquer outra origem — se traduz, sempre, em desenvolvimento real para as suas populações.

Luís Carlos

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