A política, ao contrário da matemática, não é uma ciência exacta. Ainda assim, há padrões que se repetem com uma consistência quase inquietante. A história de Júlio César permanece como advertência clássica: não caiu às mãos dos inimigos declarados, mas sob o golpe dos que lhe eram próximos. Entre eles, Marco Júnio Bruto, símbolo eterno da traição envolta em confiança. A geografia muda, mas a natureza humana permanece.
Angola não é Roma, mas o funcionamento do poder raramente se afasta dessa lógica. O MPLA, no poder desde 1975, consolidou uma regra simples: quem controla o partido controla o Estado. E quem controla o Estado define quem permanece relevante. Contudo, essa lógica é também um espelho — reflecte não apenas a força, mas também as fragilidades, incluindo a traição.
O partido nunca foi um espaço de harmonia permanente. É, antes, uma arena onde a lealdade tem prazo curto. Hoje é-se camarada, amanhã obstáculo, depois memória. A fidelidade, nesse contexto, não é valor absoluto — é instrumento circunstancial.
A transição de poder protagonizada por José Eduardo dos Santos ilustra bem essa dinâmica. Ao deixar a presidência, fê-lo sob a convicção de que o sistema permaneceria sob controlo: sucessor escolhido, partido alinhado, continuidade assegurada. Mas a política raramente respeita guiões. Em poucos meses, o novo líder reconfigurou o equilíbrio interno, afastou figuras, abriu investigações e consolidou o seu próprio espaço de poder. O antigo centro de gravidade foi, silenciosamente, deslocado.
Hoje, o cenário repete-se com uma ironia quase inevitável. João Lourenço aproxima-se do fim do seu ciclo com uma ambição clássica: abandonar a presidência do Estado, mantendo o controlo do partido e influenciando a sucessão. A chamada “bicefalia do poder” — uma arquitectura onde o poder formal e o poder partidário coexistem — surge como solução aparente. Mas a história mostra que esse equilíbrio é, na maioria das vezes, instável.
Nos bastidores, o ambiente está longe de ser de estabilidade. À medida que se aproximam os ciclos eleitorais de 2026 e 2027, intensificam-se os cálculos internos, as alianças discretas e as disputas pela sucessão. O desgaste acumulado, tanto político como social, acrescenta pressão a um sistema que já opera sob tensão.
E sempre que há sucessão, há uma pergunta que raramente é feita em voz alta: quem será o primeiro a romper?
O desafio não reside apenas na escolha do sucessor, mas na forma como essa sucessão se concretiza. Se for percepcionada como continuidade disfarçada, pode gerar ruptura. Se surgir como ruptura declarada, exigirá legitimação rápida. Em ambos os cenários, o líder cessante tende a transformar-se num potencial obstáculo — e, como tal, num alvo.
O problema não está na estratégia, mas no contexto humano que a sustenta. Num sistema onde a lealdade é frequentemente transaccional, os compromissos duram enquanto servem interesses. Não é ideologia, é sobrevivência. Quando o centro de poder se desloca, as alianças dissipam-se com a mesma rapidez com que foram construídas.
É isso que torna o momento actual particularmente denso. Não se trata apenas do fim de um ciclo presidencial, mas do início de um teste silencioso: até onde resiste a lealdade quando o poder começa a escapar?
A questão não é se existirá um “Brutus” dentro do MPLA. A história sugere que essa hipótese é quase inevitável. A verdadeira incógnita é outra: quantos já estarão posicionados, aguardando o momento certo?
Nos órgãos internos do partido — do Comité Central ao Bureau Político — a política segue o seu curso natural, feito de sorrisos públicos e cálculos privados. Já não se discute apenas sucessão; discute-se sobrevivência. Quem deterá o controlo real? Quem garantirá protecção após a transição? Quem escreverá a narrativa dominante?
E, sobretudo, quem avançará primeiro?
No fim, a maior ilusão do poder é acreditar que se controla o seu desfecho. Júlio César acreditou — e caiu. José Eduardo dos Santos acreditou — e foi ultrapassado. João Lourenço conhece essas lições melhor do que ninguém.
Talvez por isso o seu maior adversário não esteja na oposição, nem nas ruas, nem nos discursos de Adalberto Costa Júnior.
Está dentro.
Senta-se à mesa.
Aplaude nos congressos.
E espera.
Porque o tempo político não perdoa nem negocia. E, no fim, o poder assemelha-se a um castelo de areia: impressiona enquanto resiste, mas basta a maré certa — no momento certo — para revelar a sua verdadeira natureza. Não desaparece. Apenas muda de mãos.
Por Horácio dos Reis - Jornalista

