A informação foi avançada pelo jornalista e economista Carlos Rosado de Carvalho, que sublinha não haver surpresa na decisão da Comissão Nacional Eleitoral (CNE). A INDRA tem sido presença constante nos escrutínios angolanos desde a retoma das eleições, tendo participado nos actos eleitorais de 2008, 2012, 2017 e 2022. Com a nova adjudicação, a empresa prepara-se para intervir pela quinta vez consecutiva, reforçando uma posição que vários observadores classificam como dominante no sector.
Apesar da continuidade, a escolha da empresa espanhola continua a ser alvo de fortes críticas por parte da oposição e de organizações da sociedade civil, que a acusam de envolvimento indirecto em alegadas irregularidades eleitorais. A INDRA rejeita tais acusações, atribuindo-lhes motivações políticas. Ainda assim, críticos recordam que a empresa foi multada em Espanha por alegados pagamentos de comissões relacionados com o processo eleitoral angolano de 2008.
Neste contexto, analistas defendem que o processo de contratação deveria ter sido conduzido com maior abertura e escrutínio público. O concurso público, lançado no final do ano passado e concluído em menos de um mês, contou com quatro concorrentes — três empresas angolanas e a própria INDRA. No entanto, as empresas nacionais acabaram excluídas, levantando dúvidas sobre a real competitividade do procedimento.
Entre os critérios exigidos no caderno de encargos constava a obrigatoriedade de experiência na organização de eleições em, pelo menos, seis países e com um universo superior a oito milhões de eleitores — requisitos que afastam à partida qualquer empresa angolana e limitam significativamente a concorrência internacional. Para alguns observadores, estas condições terão favorecido a empresa vencedora.
A polémica em torno da INDRA soma-se a outras controvérsias ligadas à gestão do processo eleitoral, nomeadamente a escolha do actual presidente da CNE, Manuel Pereira da Silva. O responsável é contestado pela oposição e por sectores da sociedade civil, que o acusam de parcialidade a favor do MPLA nas eleições de 2022.
Com uma liderança eleitoral e um fornecedor tecnológico ambos sob contestação, analistas admitem que o ambiente político em torno das eleições de 2027 poderá ser marcado por forte desconfiança. Neste cenário, cresce o receio de que os resultados venham a ser novamente rejeitados por partidos da oposição e organizações independentes, prolongando o ciclo de contestação eleitoral em Angola.

