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Sábado, 21 Março 2026 19:06

General Lukamba Gato relata bastidores dos contactos iniciais após cessar-fogo de 2002 (III)

O general Paulo Lukamba Gato revelou novos detalhes sobre os momentos decisivos que se seguiram ao cessar-fogo unilateral decretado pelo Governo angolano em março de 2002, lançando luz sobre os bastidores de um dos processos mais sensíveis da história recente de Angola.

De acordo com o também dirigente da UNITA, o desenrolar dos acontecimentos foi marcado por intensas diligências diplomáticas e militares, protagonizadas por figuras-chave de ambos os lados do conflito.

No dia 20 de março de 2002, o general Geraldo Sachipengo Nunda terá desempenhado um papel determinante ao deslocar-se, de helicóptero, à localidade de Lukonya, numa missão descrita como “de bons ofícios”. Conhecido pela sua discrição e eficácia, Nunda levava consigo uma mensagem clara após reportar diretamente ao então Presidente José Eduardo dos Santos.

Segundo o relato, o Chefe de Estado terá concordado com a necessidade de alterar o formato das negociações em curso. “Vamos suspender os contactos iniciados em Kasamba e adoptar um novo formato”, terá comunicado o general, abrindo caminho para uma reconfiguração do processo negocial.

A resposta de Lukamba Gato foi imediata: com o novo cenário, a UNITA estaria pronta para formar uma delegação mais abrangente. A liderança política desse grupo seria confiada a Marcial Adriano Dachala, encarregado de preparar o terreno para a chegada dos restantes membros.

Dois dias depois, a 22 de março, tiveram início na cidade do Luena as negociações formais entre as partes, num processo que se prolongaria por cerca de oito dias.

Antes da assinatura final, a 30 de março, o esboço do acordo foi enviado para Lukonya por intermédio de duas figuras históricas da UNITA: Samuel Chiwale e Isaías Chitombi, numa etapa decisiva para a consolidação do entendimento.

Lukamba Gato faz questão de destacar o papel desempenhado por Nunda, sublinhando o seu conhecimento profundo tanto da estratégia militar como da estrutura interna da UNITA — resultado de anos de convivência no mesmo campo ideológico e operacional.

Um dos pontos mais marcantes do testemunho prende-se com a aparente facilidade com que os militares chegaram a consensos, contrastando com as dificuldades persistentes no plano político.

Para Lukamba Gato, essa realidade confirma uma máxima: tanto a guerra como a paz são decisões essencialmente políticas. “As Forças Armadas apenas obedecem à direcção política”, recorda, alinhando com declarações anteriores do próprio José Eduardo dos Santos.

O contexto das negociações era, no entanto, particularmente complexo. À época, a UNITA encontrava-se profundamente fragmentada em várias alas: a estrutura do “maquis”, liderada por Jonas Savimbi; a missão externa; o grupo parlamentar; e a chamada UNITA Renovada.

Do ponto de vista legal, o Governo reconhecia apenas esta última como interlocutora válida, uma vez que a ala militar estava sob sanções internacionais e havia sido formalmente ilegalizada. Esse enquadramento levou a que os representantes provenientes do maquis adotassem uma postura discreta — ou “low profile” — durante as cerimónias oficiais de 4 de abril.

Só posteriormente muitos desses quadros tomariam conhecimento de que, durante as negociações, ainda eram considerados “proscritos”.

Reunificação e legado

Apesar dos obstáculos, o processo culminou na reunificação da UNITA ainda em 2002, consolidada no seu IX Congresso, realizado no ano seguinte. Para Lukamba Gato, esse desfecho só foi possível graças à vontade política das partes e à flexibilidade demonstrada pelos mecanismos de gestão do processo.

O Acordo do Luena permanece, assim, como um marco histórico, não apenas pelo fim formal da guerra civil angolana, mas também pela complexidade das circunstâncias que o rodearam.

Na reflexão final, o general recorre a uma metáfora para descrever a resiliência do seu partido: “A UNITA é como uma árvore de raízes profundas. Pode oscilar com a força do vento, mas não se desenraiza.”

Uma imagem que, mais de duas décadas depois, continua a ecoar na memória política de Angola.

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