Terça, 23 de Junho de 2026
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Terça, 23 Junho 2026 21:33

O Caso Higino Carneiro: Quando a Justiça se Torna Conveniência Política

O que está a acontecer com o General Higino Carneiro não é um caso isolado, mas sim um aviso de navegação para as hostes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). A mensagem subliminar que ecoa dos corredores do poder em Luanda é cristalina: qualquer membro do partido que ouse desafiar a liderança estabelecida arrisca-se a ver o seu passado revisitado pela mão invisível do sistema.

O percurso do processo judicial contra o histórico general é, no mínimo, sintomático de uma cronologia de conveniências. Acusado de peculato e branqueamento de capitais, Higino Carneiro viu o seu caso ser oficialmente arquivado pelo Tribunal Supremo de Angola em maio de 2022. O assunto parecia arrumado e a justiça feita. Contudo, bastou que o general anunciasse publicamente, este ano, a sua candidatura à liderança do MPLA para que a máquina judicial ganhasse um súbito e renovado fôlego, reabrindo o processo outrora encerrado.

Esta "coincidência" temporal levanta questões profundas sobre a saúde democrática das instituições angolanas. Quando a justiça penal é ativada ou desativada ao ritmo do calendário político e das ambições de liderança interna, perde o seu cariz universal e transforma-se numa mera ferramenta de arremesso fações.

O Mito da Democracia Interna

A ausência de uma verdadeira democracia interna no seio do partido que governa o país desde a independência, em 1975, projeta uma sombra pesada sobre o futuro da nação. Se o MPLA não consegue tolerar o pluralismo, o debate e a dissidência pacífica dentro das suas próprias fileiras, como poderá o cidadão comum acreditar que este mesmo partido seja capaz de organizar e aceitar eleições gerais transparentes, livres e justas?

A equação é simples: a transparência externa é o reflexo da democratização interna. Sem a segunda, a primeira não passa de uma miragem para consumo externo.

A Erosão da Confiança Pública

Num país onde a perceção pública aponta, de forma recorrente, para uma magistratura e um aparelho judicial fortemente dependentes do poder político, episódios desta natureza funcionam como um tónico para o ceticismo. É perfeitamente natural — e legítimo — que os cidadãos questionem a credibilidade de todo o processo democrático angolano.

A instrumentalização do combate à corrupção, que deveria ser a bandeira de uma Angola moderna e renovada, corre o risco de ser recordada apenas como um mecanismo de purga e controlo de danos políticos. Enquanto a justiça for vista como um braço executivo para travar opositores internos e externos, a estabilidade democrática de Angola continuará a ser o elo mais fraco da sua história recente.

Por Luís Carlos - Editor

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