Quinta, 30 de Abril de 2026
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Quinta, 30 Abril 2026 17:22

Venâncio alerta para riscos de “bicefalia” e promete reformas internas no MPLA

O engenheiro António Francisco Venâncio, pré-candidato à presidência do MPLA, alertou para os riscos de uma eventual separação entre a liderança do partido e o exercício do poder executivo em Angola, defendendo que o actual modelo constitucional não acomoda uma “bicefalia” sem gerar conflitos institucionais.

Em entrevista à Rádio Essencial, conduzida por Edmundo Pimentel, Venâncio considerou que o sistema político angolano exige uma revisão estrutural caso se pretenda separar funções. “O problema é o modelo. O regime e o sistema político angolano não permitem. Teríamos que mudar primeiro a Constituição”, afirmou, sugerindo que um eventual modelo com primeiro-ministro implicaria uma clara divisão de poderes.

Segundo o pré-candidato, a coexistência de um líder partidário e de um titular do poder executivo com agendas distintas pode gerar choques, sobretudo ao nível das prioridades e dos prazos de governação. “O presidente do partido quer conservar o poder; o titular do poder executivo quer executar políticas. Os interesses podem não coincidir”, explicou, apontando ainda possíveis divergências na nomeação e avaliação de quadros.

Democracia interna ainda “no papel”

Venâncio reiterou que, apesar de o MPLA se assumir como um partido democrático, essa prática ainda não se materializou plenamente. “Na teoria é um partido democrático, mas na prática não tem exercido essa democracia”, disse, defendendo maior abertura, competição interna e escrutínio dos dirigentes.

Na sua análise, o actual processo de múltiplas candidaturas representa um avanço significativo, permitindo introduzir uma cultura de responsabilidade política. “A concorrência obriga os líderes a apresentarem resultados e a prepararem-se melhor. Isso nunca aconteceu de forma consistente no partido”, afirmou.

O engenheiro rejeitou a ideia de que o actual Presidente do MPLA, João Lourenço, detenha vantagens determinantes no processo, sublinhando que não vê mecanismos concretos que permitam inviabilizar candidaturas. Ainda assim, recordou declarações passadas do chefe de Estado que considerou “desencorajadoras” para a participação interna.

Aposta na descentralização e nas autarquias

Entre as prioridades apresentadas, Venâncio destacou a implementação efectiva das autarquias locais como elemento central para a redistribuição do poder. “O poder deve estar nas mãos do povo e não concentrado permanentemente num partido”, defendeu, acrescentando que essa reforma exige “coragem política”.

O pré-candidato afirmou ainda pretender aproximar o partido da sociedade, valorizar a juventude e integrar quadros, inclusive fora do MPLA, no processo de desenvolvimento nacional. Defendeu também a necessidade de reconciliação entre angolanos e a criação de um ambiente político mais inclusivo.

Críticas à governação e prioridades económicas

Durante a entrevista, Venâncio reconheceu falhas na governação, apontando problemas estruturais como pobreza, falta de água e energia, dificuldades na diversificação económica e alegadas insuficiências no combate à corrupção. “Há muita coisa por fazer e a balança pesa mais no lado dos erros”, afirmou.

O engenheiro defendeu uma revisão das prioridades de investimento público e maior abertura a soluções técnicas alternativas, nomeadamente em áreas como infraestruturas, habitação e abastecimento de água.

Sem “caça às bruxas”

Questionado sobre eventuais tensões internas no pós-congresso, Venâncio rejeitou cenários de perseguição política dentro do partido. “Não haverá caça às bruxas. A integridade dos membros será salvaguardada”, garantiu, sublinhando, no entanto, a necessidade de responsabilização ética.

O IX Congresso Ordinário do MPLA, previsto para Dezembro, deverá eleger a nova liderança do partido, num contexto marcado por maior pluralidade de candidaturas e expectativas de reforma interna.

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