Quarta, 28 de Outubro de 2026
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Quarta, 28 Outubro 2026 12:12

Tesouro despeja dólares no mercado, mas fantasma de 2022 ameaça o kwanza

O reforço da oferta de divisas no mercado angolano não chega para fechar o fosso cambial. Os dólares disponíveis cobrem apenas metade da factura mensal de importações de bens e serviços.

O petróleo continua a ser o principal fornecedor de moeda norte-americana, embora tenha vendido menos, e o Tesouro está a acelerar as colocações, o que faz regressar o "fantasma" de 2022: o ano em que inundou o mercado de divisas e, pouco depois, deixou o kwanza exposto à desvalorização.

Entre Janeiro e Setembro, a banca comprou 10.042 milhões de dólares em moeda estrangeira, mais 15% do que no mesmo período do ano passado. Em termos absolutos, o aumento foi de cerca de 1.300 milhões de dólares, segundo cálculos do Expansão com base em dados do Banco Nacional de Angola (BNA). A média mensal situou-se nos 1.116 milhões de dólares, um valor que continua aquém das necessidades da economia e que cobre pouco mais de metade da factura mensal de importações do País.

Se a maior oferta reforça a liquidez cambial, não corrige o desequilíbrio entre as divisas disponíveis no sistema bancário e as necessidades dos agentes económicos.

O sector petrolífero continua a ser a principal fonte, com 37% das vendas de moeda estrangeira aos bancos comerciais. Nos primeiros nove meses, as petrolíferas venderam 3.705 milhões de dólares, menos 170 milhões do que um ano antes. A quebra reflecte, em parte, os constrangimentos da indústria, cuja capacidade de gerar divisas depende do comportamento da produção. Mesmo com preços internacionais do crude mais altos, a produção reduzida limita a entrada de moeda estrangeira num sector que continua a ser determinante para o abastecimento do mercado cambial.

Os clientes diversos, categoria que reúne particulares, empresas de vários sectores, instituições de ensino e igrejas, surgem na segunda posição, com vendas de 2.822 milhões de dólares aos bancos. O valor representa uma subida de 19% (mais 445 milhões de dólares).

O sector diamantífero vendeu 1.014 milhões de dólares, mais 47 milhões do que em igual período de 2025, enquanto as vendas pontuais do BNA atingiram 339 milhões, mais 29 milhões.

Foi o Tesouro Nacional, porém, quem mais aumentou a oferta. As colocações de moeda estrangeira dispararam 78%, para 2.162 milhões de dólares, o que corresponde a um acréscimo de cerca de 948 milhões. Na prática, o Estado compensou parte da quebra das petrolíferas. A composição da oferta merece, por isso, atenção: o reforço da disponibilidade de divisas depende em grande medida de uma fonte cuja intervenção pode variar em função das necessidades de financiamento do Estado.

O cenário faz lembrar 2022, ano de eleições gerais, em que o Tesouro colocou volumes significativos de divisas no mercado e contribuiu para uma forte apreciação do kwanza. As consequências chegaram logo após o escrutínio: o Tesouro reduziu de forma expressiva as vendas e o kwanza entrou no maior ciclo de depreciação da sua história. Os efeitos ainda hoje se fazem sentir, com a moeda nacional a transaccionar em níveis historicamente elevados face ao dólar.

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