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Sexta, 08 Mai 2026 13:49

“Queriam transformar-me num Júlio Iglesias africano, mas escolhi cantar em quimbundo”, afirma Bonga

Mais de cinco décadas depois de iniciar uma carreira que atravessou continentes, regimes políticos e gerações, Bonga continua a afirmar-se como uma das vozes mais influentes da música africana lusófona.

Em entrevista ao podcast Posto Emissor, da revista BLITZ, o músico revisitou episódios marcantes da sua vida, desde a infância nos bairros de Luanda até à luta pela independência de Angola, passando pelo exílio na Europa, a carreira no atletismo e o olhar crítico sobre o presente do país.

Autor de clássicos como Mariquinha e Angola 72, Bonga recordou o percurso que começou nos bairros populares de Luanda, onde cresceu rodeado pela música tradicional angolana e pelas vivências comunitárias.

“O pai tocava concertina e eu acompanhava com a dikanza. Foi ali que nasceu o amor pela música”, contou o artista, descrevendo uma infância marcada pelo convívio familiar, pelas brincadeiras de rua e pela forte ligação à cultura popular.

Antes de conquistar reconhecimento internacional na música, Bonga destacou-se no atletismo. Recordista nacional dos 400 metros durante dez anos, chegou a Portugal em 1966 para representar o Sport Lisboa e Benfica, experiência que acabaria por abrir portas para a sua actividade política clandestina ligada à luta pela independência de Angola.

Durante a entrevista, o músico revelou ter utilizado as viagens internacionais enquanto atleta para transportar mensagens e informações ligadas aos movimentos independentistas angolanos, escapando à vigilância da polícia política portuguesa.

“Sabíamos que éramos seguidos. Havia sempre alguém que não fazia parte da equipa, mas que aparecia nas viagens”, relatou.

A fuga para os Países Baixos, em 1972, foi outro dos momentos marcantes recordados por Bonga. O músico explicou que abandonou Portugal após saber da prisão de vários elementos ligados à rede clandestina com quem colaborava.

“Ou fugia naquela altura ou seria preso também”, afirmou.

Foi precisamente durante o período de exílio na Holanda que gravou Angola 72, álbum considerado um marco da música de intervenção africana. O disco foi registado num único dia e acabaria por transformar Bonga num símbolo cultural da resistência angolana.

A passagem por Paris representou igualmente um ponto de viragem na carreira do artista. Na capital francesa conviveu com nomes históricos da música internacional, entre os quais Charles Aznavour, Miles Davis e Martinho da Vila.

Bonga recordou com emoção o momento em que actuou antes de Charles Aznavour num espectáculo em Paris, experiência que descreveu como decisiva para a afirmação da sua carreira internacional.

Ao longo da conversa, o músico falou ainda sobre o 25 de Abril, o processo de independência de Angola e o desencanto com o rumo político e social do país após a libertação do colonialismo.

“Valeu a pena lutar pela independência, mas o povo foi defraudado”, afirmou, criticando os conflitos internos, a corrupção, a pobreza e a ausência de oportunidades para os jovens angolanos.

O cantor mostrou-se particularmente crítico em relação à situação económica e social de Angola, lamentando que um país rico em recursos naturais continue confrontado com dificuldades estruturais.

“Temos terra fértil, temos recursos, mas continuamos de mãos abanadas”, declarou.

Bonga criticou igualmente aquilo que considera ser a exploração externa de África, defendendo relações internacionais mais solidárias e menos centradas apenas na extracção de riqueza.

Na entrevista, o artista falou também sobre a preservação da identidade cultural africana e rejeitou as tentativas da indústria musical internacional de transformar a sua música num produto comercial desligado das raízes angolanas.

“Queriam fazer de mim uma espécie de Júlio Iglesias africano. Recusei. Sempre quis cantar em quimbundo e manter a minha identidade”, revelou.

Apesar das críticas e desilusões, Bonga mantém uma visão de esperança assente na solidariedade, no diálogo e na recuperação dos valores comunitários que marcaram a sua juventude.

Aos 83 anos, o músico continua activo e atento às novas gerações, defendendo a necessidade de preservar a autenticidade da música africana num contexto dominado pelas lógicas comerciais da indústria global.

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