Neste contexto, uma eventual vitória eleitoral do MPLA, sem recurso a mecanismos de condicionamento ou manipulação do processo, é considerada por alguns sectores políticos como um cenário de difícil concretização.
A leitura assenta no desgaste da imagem do Executivo, associado às dificuldades económicas e sociais que afectam a população, bem como às tensões que atravessam o partido. Estes factores poderão fragilizar a capacidade de mobilização eleitoral do MPLA e reduzir as suas perspectivas de conquistar legitimidade nas urnas.
Perante este quadro, o controlo da sociedade e a influência sobre o processo eleitoral são apontados, por analistas políticos, como instrumentos que poderão assumir importância estratégica para a continuidade do actual círculo de poder.
A avaliação sugere que a manutenção do poder por João Lourenço e pelo seu núcleo político mais próximo poderá passar não apenas por uma candidatura directa, mas também pela escolha de uma figura que assegure a continuidade da actual influência política, através de uma solução de sucessão ou de representação indirecta.
O IX Congresso Ordinário do MPLA, marcado para 9 e 10 de Dezembro de 2026, em Luanda, deverá ser determinante para definir os próximos passos da liderança. Lourenço pretende manter-se à frente do partido, enquanto círculos próximos defendem uma «bicefalia estratégica», com a separação entre a presidência do MPLA e a liderança da candidatura às eleições gerais.
Esta solução permitiria ao actual Presidente conservar o controlo da estrutura partidária, enquanto outra figura assumiria a responsabilidade de liderar a candidatura eleitoral.
O processo de sucessão é, entretanto, alvo de críticas. O investigador Rui Verde considera que foi «mal conduzido», gerando «muita incerteza» e «especulação». Outros observadores, entre os quais Nelson Pestana, apontam a ausência de mecanismos transparentes de escolha do sucessor como um dos factores que expõem as divergências internas.
O MPLA rejeita, porém, a existência de uma crise interna e garante estar «coeso», apesar das divergências, mantendo o objectivo de conquistar uma maioria mais expressiva nas próximas eleições.
Desgaste eleitoral e crescimento da oposição
Nas eleições gerais de 2022, o MPLA obteve 51,17% dos votos e 124 deputados, contra 43,95% e 90 lugares conquistados pela UNITA, o melhor resultado da história do maior partido da oposição.
O resultado evidenciou a redução da distância eleitoral entre os dois partidos. Rui Verde refere mesmo a existência de uma percepção de que a UNITA poderá vencer as eleições de 2027.
Entretanto, a oposição procura reforçar a articulação política. A UNITA voltou a defender uma ampla Frente Patriótica para a alternância do poder, procurando reunir diferentes forças políticas em torno de uma candidatura alternativa.
Oposição denuncia condicionamento eleitoral
O contexto de incerteza política é acompanhado por acusações da oposição sobre alegadas tentativas de condicionamento do processo eleitoral, ainda sem comprovação independente.
Entre as principais denúncias estão:
━ A alegada utilização da actualização do registo eleitoral em benefício do MPLA;
━ Supostas pressões sobre funcionários públicos para apresentarem comprovativos de registo nos locais de trabalho;
━ A intervenção de estruturas do partido no poder nas operações de prova de vida;
━ As queixas de quatro partidos que afirmam estar impedidos de fiscalizar o registo eleitoral;
━ A contestação da realização das eleições presidenciais e legislativas num único boletim de voto;
━ As reservas quanto à escolha, pela quinta vez, da empresa espanhola Indra para assegurar a tecnologia eleitoral, decisão que o líder da UNITA associou ao «medo» do poder.
O registo eleitoral arrancou a 15 de Junho e decorre até 31 de Março de 2027, devendo abranger 16,7 milhões de cidadãos.
Perante as denúncias, a oposição exige uma missão internacional de observação eleitoral independente e abrangente, que acompanhe todas as fases do processo.
Controlo eleitoral e continuidade do poder
Para alguns sectores políticos, a impopularidade do regime, as divisões no MPLA e o crescimento da oposição constituem desafios à permanência do partido no poder.
Nesta perspectiva, o controlo da sociedade e a influência sobre o processo eleitoral poderão assumir importância estratégica perante as dificuldades de assegurar uma vitória inequívoca nas urnas.
A disputa ultrapassa a escolha do próximo candidato presidencial. Está igualmente em causa a capacidade de João Lourenço preservar a sua influência sobre o MPLA e o futuro Executivo, directamente ou através de uma figura da sua confiança.
A sucessão poderá, assim, representar não uma verdadeira mudança de poder, mas uma reorganização interna destinada a preservar o actual círculo de influência política.
O congresso de Dezembro será um momento decisivo para perceber se as divergências internas serão ultrapassadas ou se as fracturas no MPLA se irão aprofundar. Entretanto, a transparência e a credibilidade do processo eleitoral permanecem no centro do debate político angolano.

