Sexta, 11 de Setembro de 2026
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Sexta, 11 Setembro 2026 22:44

Higino Carneiro chumbado: cresce polémica sobre independência do Tribunal Constitucional

Há decisões que se leem nos acórdãos e há decisões que se leem no ar. A que o Tribunal Constitucional angolano proferiu esta semana, julgando improcedente a providência cautelar interposta por Higino Carneiro contra o "chumbo" à sua candidatura à liderança do MPLA, pertence a esta segunda categoria. Não é preciso ser jurista para sentir que algo, além do direito, se decidiu ali.

O Plenário do TC rejeitou o pedido de suspensão das deliberações da Subcomissão de Candidaturas da Comissão Nacional Preparatória do IX Congresso Ordinário do partido. Tecnicamente, o processo está encerrado. Politicamente, começou agora.

O cheiro que ficou

Um deputado da UNITA resumiu o sentimento de muitos angolanos numa frase que já corre nos grupos de WhatsApp e nas conversas de rua: acreditar que o Tribunal Constitucional é independente seria como acreditar que a Branca de Neve e os Sete Anões vivem no Sambizanga. A ironia é cruel, mas é também um sintoma. Não interessa, para este efeito, se Higino Carneiro tinha ou não razão jurídica no seu pedido. Interessa a perceção que ficou: a de uma decisão que parecia já escrita antes de ser lida.

Esse é o verdadeiro problema. Não é o resultado — é o cheiro do resultado.

O voto que rachou o Plenário

E este não é apenas um argumento de rua. Também dentro do próprio tribunal houve quem discordasse. A juíza conselheira Margaret Nanga votou contra a decisão da maioria e deixou, no Acórdão n.º 1137/2026, uma declaração de voto vencido onde defende que a candidatura de Higino Carneiro deveria ter sido provisoriamente mantida.

Na sua fundamentação, Nanga considera que estavam reunidas as condições para uma intervenção urgente do TC, perante o risco de a passagem do tempo tornar irreparáveis os efeitos do afastamento do candidato — o chamado periculum in mora: o perigo de que a demora da justiça transforme uma eventual vitória futura em vitória inútil. Para a magistrada, o conjunto dos factos cria, pelo menos num juízo de probabilidade, uma séria aparência de violação de direitos fundamentais de participação política, de acesso a cargos de direcção partidária e de candidatura.

É um detalhe que muda o tom de toda a discussão. Não se trata apenas da perceção popular de que algo cheira mal. Trata-se de uma magistrada do próprio Plenário a dizer, por escrito e com o peso da toga, que a maioria dos seus pares pode ter ignorado um perigo real e um direito constitucional. Quando a dissidência nasce de dentro da instituição, deixa de ser boato de esquina para passar a ser facto processual.

Quando a toga vira panfleto

Um tribunal constitucional existe para bater o martelo, não para bater continência. Quando as instituições que deveriam arbitrar o poder passam a confirmá-lo, o país deixa de viver em democracia plena e passa a viver naquilo que só podemos chamar de lei seca — uma lei bonita no papel, emoldurada, citável, mas que serve sobretudo para dar cobertura formal a decisões tomadas noutro lugar.

Foi assim na América de Al Capone: a lei existia, elegante e solene, mas quem mandava era o compadrio, o amigo do amigo, o recado dado ao ouvido. Angola não precisa de reproduzir esse modelo. Trocar o uísque pelo papel timbrado, o fuzil pelo carimbo, não muda a essência do problema — muda apenas a estética. O método continua a ser o mesmo: decide-se primeiro, justifica-se depois.

O precedente é o verdadeiro réu

O nome que hoje ocupa as manchetes é Higino Carneiro. Mas o que está verdadeiramente em julgamento é a credibilidade do próprio Tribunal Constitucional. Se a instituição serve hoje para calar um lado, amanhã pode servir para calar o outro — e ninguém, seja qual for o partido ou o gabinete, deveria desejar viver num país onde a justiça tem dono.

Porque um país onde o povo deixa de acreditar na justiça é um país que aprende a resolver tudo na rua. É um país que troca o tribunal pelo linchamento moral, e chama de coragem ao que não passa de vingança.

O que se pede não é um favor

Higino Carneiro tem direito à defesa e ao contraditório — isso não é generosidade de ninguém, é Constituição. E o Tribunal Constitucional tem, por sua vez, o dever de provar, linha a linha do seu acórdão, que não é quintal de ninguém, nem extensão de gabinete, nem caixa de correio de interesses alheios.

Se a toga serve apenas para a fotografia protocolar, então que se feche o tribunal e se distribuam megafones — sai mais barato e, sobretudo, dói menos a quem ainda acredita nas instituições.

O voto vencido de Margaret Nanga mostra que essa fractura de confiança já não é apenas popular. Já entrou pela porta do próprio Tribunal Constitucional.

Num país verdadeiramente sério, o "chumbo" não cai sobre quem recorre à justiça. Cai sobre quem abusou do poder. Cai sobre quem tentou transformar a lei em encomenda. Até que isso aconteça, os angolanos seguem com uma inquietação por resolver: a de que o próximo "chumbo" pode, um dia, bater à porta de qualquer um.

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Last modified on Sexta, 11 Setembro 2026 23:15