Sábado, 01 de Agosto de 2026
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Sábado, 01 Agosto 2026 15:59

Empresas Próximas do Poder: Quem Herdará os Grandes Contratos Após 2027?

Luanda – Ao longo das últimas duas décadas, as grandes obras públicas, os projectos estruturantes e o financiamento estatal em Angola têm sido frequentemente associados a grupos empresariais próximos do poder político. A alternância na Presidência da República não alterou totalmente essa realidade, embora tenha mudado os protagonistas que dominam os principais sectores da economia.

Durante o mandato do Presidente João Lourenço, empresas como a Omatapalo, Grupo MCA, Grupo Carrinho, Gemcorp, Grupo Mitrelli e Grupo Opaia consolidaram a sua posição como alguns dos maiores beneficiários de contratos públicos, concessões, investimentos estratégicos e programas financiados pelo Estado.

Estes grupos marcaram presença em sectores como construção civil, infra-estruturas, agricultura, logística, saúde, energia, habitação, telecomunicações e abastecimento alimentar, tornando-se parceiros frequentes do Executivo em projectos considerados prioritários para o desenvolvimento nacional.

Os grupos dominantes durante a era José Eduardo dos Santos

No período em que José Eduardo dos Santos liderou o país, entre 1979 e 2017, o panorama empresarial apresentava outros protagonistas, muitos deles igualmente associados ao círculo político e económico do regime.

Entre os grupos que ganharam maior expressão destacavam-se:

─ Grupo Geni, liderado por Manuel Vicente, antigo presidente da Sonangol e posteriormente Vice-Presidente da República;

─ Empresas ligadas ao empresário Leopoldino Fragoso do Nascimento "Dino", com forte presença nos sectores petrolífero, segurança e logística;

─ O grupo empresarial de General Hélder Vieira Dias "Kopelipa", com interesses em diversos sectores estratégicos;

─ Empresas associadas ao general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, através de diferentes participações empresariais;

─ China International Fund (CIF), um dos principais parceiros na reconstrução nacional financiada por linhas de crédito chinesas;

─ Grupo AAA, ligado ao empresário Carlos São Vicente, especialmente nos sectores dos seguros e serviços;

─ Empresas ligadas a membros da família Dos Santos, incluindo participações de Isabel dos Santos em telecomunicações, banca, energia, distribuição e indústria.

Durante esse período, muitas destas empresas beneficiaram de grandes contratos públicos, concessões mineiras, projectos imobiliários, linhas de crédito internacionais e investimentos financiados pelo Estado.

Mudam os governos, mudam os parceiros?

A sucessão presidencial de 2017 provocou uma profunda alteração no mapa empresarial angolano. Diversos grupos que dominavam a economia durante a presidência de José Eduardo dos Santos perderam influência, enquanto novas empresas passaram a assumir protagonismo em concursos públicos e grandes investimentos.

Analistas consideram que esta mudança demonstra que a proximidade ao poder político continua a desempenhar um papel determinante na atribuição de oportunidades económicas, embora o Executivo de João Lourenço sustente que os contratos obedecem aos mecanismos legais de contratação pública e aos critérios de interesse nacional.

A grande incógnita de 2027

Com o horizonte das Eleições Gerais de 2027, coloca-se a questão sobre a sustentabilidade do modelo. Experiências do passado mostram que quando há transição de liderança em Angola, o "capitalismo de Estado" reconfigura-se.

Se o MPLA mantiver o poder com um sucessor da confiança de João Lourenço (nomes como Adão de Almeida ou Manuel Homem surgem amiúde nas especulações), as empresas aliadas ao actual ciclo poderão negociar continuidades. No entanto, caso haja uma alteração de forças ou uma viragem política profunda, os grupos que hoje beneficiam de ajustes directos arriscam perder o acesso privilegiado à máquina do Estado — exactamente como aconteceu com os impérios da era Eduardo dos Santos.

O Tabuleiro do MPLA: Porquê Returar-se da Presidência, Mas Manter o Partido?

A insistência em manter as rédeas da presidência do MPLA até 2027 e coordenar a própria sucessão insere-se numa dupla estratégia política e económica:

1 ─ Garantia de Imunidade e Blindagem Económica: Manter o controlo do partido garante a João Lourenço a palavra final sobre quem será o candidato às eleições de 2027. Colocar um aliado no Palácio da Cidade Alta é a principal garantia de que os activos e contratos dos seus parceiros empresariais não serão alvo das devassas judiciais que ele próprio aplicou ao clã dos Santos.

2 ─ Evitar a Bicefalia e a Fragmentação do Poder: O modelo político angolano assenta na sobreposição do partido sobre o Estado. Perder o comando do MPLA antes da eleição presidencial significaria transformar-se num "lame duck" (um Presidente sem poder real), expondo os aliados económicos a retaliações internas das facções rivais do próprio partido.

O controlo do partido é, portanto, o derradeiro escudo de protecção para que os novos "campeões nacionais" do ciclo de João Lourenço sobrevivam à viragem do seu mandato.

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