Legalizado em novembro de 2024 pelo Tribunal Constitucional, o PRA-JA surge, segundo o seu líder, como uma alternativa “efetiva e credível” após cinco décadas de governação do MPLA. “Depois de 50 anos de independência, 34 anos de pluralismo e 23 anos de paz, é chegado o momento de fazermos a mudança”, afirmou Chivukuvuku, apelando diretamente aos angolanos para avaliarem o percurso do país.
Ao longo da entrevista, Chivukuvuku foi particularmente crítico em relação ao MPLA, partido no poder desde 1975, considerando que o país continua marcado por pobreza estrutural, desemprego elevado e fragilidades nos serviços públicos.
“O balanço é claro: não aceito que, ao fim de 50 anos, ainda haja fome, desemprego juvenil massivo e ausência de condições básicas para a maioria da população”, declarou. Na sua perspetiva, os problemas resultam de “práticas enraizadas” e de uma governação que, acusa, não priorizou o cidadão.
O líder do PRA-JA defendeu ainda que Angola vive uma “democracia incompleta”, apontando limitações ao nível das liberdades, da transparência eleitoral e da separação entre o Estado e o partido no poder. “Há periodicidade eleitoral, mas a justeza e a transparência continuam por garantir”, sublinhou.
Questionado sobre o papel da oposição, Chivukuvuku afastou a ideia de confronto direto com a UNITA, maior partido da oposição. “A UNITA não é adversário, é concorrente. O adversário é o MPLA, que governa”, afirmou.
Ainda assim, reconheceu que o cenário político poderá evoluir para entendimentos pós-eleitorais, admitindo a possibilidade de governos participados caso nenhuma força alcance maioria absoluta em 2027. “Somos um partido de pontes”, disse, sem fechar a porta a alianças, desde que haja convergência de princípios e objetivos.
Um dos pontos centrais da entrevista foi o combate à corrupção, que Chivukuvuku considera ter sido conduzido de forma seletiva pelas autoridades. Apesar de reconhecer “coragem inicial” por parte do atual Executivo, criticou a falta de universalidade na aplicação da lei.
O líder do PRA-JA apontou casos recentes envolvendo a Administração Geral Tributária (AGT), onde jovens funcionários terão desviado milhões de dólares. “Enquanto houver impunidade, não se corrige a sociedade”, afirmou, defendendo que o combate à corrupção deve começar “de cima para baixo” e sem “dois pesos e duas medidas”.
No plano programático, Chivukuvuku destacou a necessidade de reformas estruturais, com foco na educação, saúde e emprego.
Na educação, propõe a universalização do ensino e a implementação de um modelo de “ciclo único”, que permita manter os alunos na escola durante todo o dia, garantindo também alimentação. Na saúde, defende maior aposta na prevenção e na rede de proximidade, em detrimento da centralização em grandes hospitais.
Já no emprego, considera o desemprego jovem uma “catástrofe nacional”, defendendo políticas que dinamizem o setor privado e eliminem a partidarização no acesso ao emprego público.
Chivukuvuku revelou que o PRA-JA está implantado em todo o território nacional e aposta numa estratégia de proximidade com os cidadãos, com destaque para iniciativas regulares em Luanda e no interior do país. O partido, garantiu, está preparado para concorrer sozinho às eleições de 2027.
A ambição é clara: governar. “Se os angolanos estão satisfeitos com os últimos 50 anos, que continuem. Se não estão, nós somos a alternativa”, afirmou.
Com um percurso que inclui passagens pela UNITA e pela CASA-CE, Chivukuvuku rejeita rótulos e insiste que o foco deve estar na utilidade política e na capacidade de responder às expectativas dos cidadãos.
“O importante não é de onde viemos, mas para onde queremos levar Angola”, concluiu, reforçando a ideia de que o país está perante uma oportunidade histórica de mudança.
Com o MPLA sob crescente contestação, a UNITA consolidada como principal força da oposição e o surgimento de novos atores como o PRA-JA, o xadrez político angolano prepara-se para um dos momentos mais disputados da sua história recente.
A entrevista termina com uma mensagem clara: mais do que uma candidatura, Chivukuvuku procura afirmar-se como símbolo de uma nova fase política em Angola — assente na alternância, na reforma das instituições e numa maior centralidade do cidadão.

