Segunda, 05 de Outubro de 2026
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Segunda, 05 Outubro 2026 15:15

Demolições deixam mais de 500 famílias ao relento e fazem duas vítimas no Sequele, no Icolo e Bengo

Duas pessoas morreram e centenas de familias estão ao relento no município angolano do Sequele após a demolição das suas casas pelas autoridades locais, disserem hoje moradores ouvidos pela Lusa.

Pelo menos mais de 500 familias do denominado "Bairro Sequele Zero" estão ao relento no municipio do Sequele, provincia angolana do Icolo e Bengo, na sequência de demolições intercaladas das suas residências nas duas últimas semanas de setembro.

Segundo José Ngonga, membro da comissão de moradores, forças de defesa e segurança acorreram ao local sem qualquer comunicação aos populares e começaram a deitar abaixo as suas moradias, facto que causou susto e indignação dos residentes.

A mesma fonte relatou também a morte de um recém-nascido e de uma mulher por hipertensão durante as demolições, que também causaram dois feridos.

"Porque assim que a administração [municipal do Sequele] chegou com as forças, a polícia, as Forças Armadas e o Posto de Comando Unificado, começaram a destruir logo as nossas casas, sem nenhum breve aviso à população", lamentou.

Hoje, em declarações à Lusa, José Ngonga contou que as familias afetadas, entre crianças, jovens e anciãos continuam ao relento, referindo que as residências demolidas eram de caráter definitivo e foram erguidas legalmente no local.

Rejeitou que os populares tenham invadido aquele espaço e erguido as suas moradias à margem da lei: "Não é verdade, porque temos documentos e temos como provar", afirmou, salientando que ali residem desde 2018.

"Neste momento, estamos a pedir ajuda, porque não sabemos onde [e] que essas crianças vão estar e depois já estamos na época das chuvas", frisou.

Este caso ganhou maior visibilidade nos últimos dias, nas redes sociais, onde internautas repudiaram a ação das autoridades, e após deputados da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA, maior partido na oposição) visitarem os sinistrados, na sexta-feira passada.

A Administração Municipal do Sequele informou, em comunicado, que a intervenção conjunta, que envolveu as forças de defesa e segurança e os serviços de fiscalização, decorreu entre os dias 22, 23, 24 e 25 de setembro passado, "visando a reposição da legalidade e a salvaguarda da reserva fundiária do Estado".

As autoridades alegam que a área em causa não constitui um bairro reconhecido no ordenamento territorial do Sequele, tratando-se de uma reserva fundiária do Estado, destinada à implementação de uma zona industrial, "não estando autorizada a sua ocupação para fins habitacionais".

A intervenção foi precedida de sucessivos avisos, ações de sensibilização e advertências aos ocupantes, argumenta a administração numa nota datada de 29 de setembro passado.

Os deputados da UNITA, por sua vez, condenaram as demolições, denunciaram a violação dos direitos humanos dos afetados, considerando que a expropriação só é admitida por utilidade pública e mediante justa e pronta indemnização.

Em nota, a UNITA repudia ainda a alegada tentativa de criminalização dos deputados, que dizem ter tentado buscar esclarecimentos junto da administração local, mas, sustentam, o administrador do Sequele recusou-se a receber a delegação parlamentar.

Por outro lado, a Administração do Sequele refere, em nota datada de 03 de outubro, que os deputados da UNITA foram recebidos nas suas instalações, mas durante o encontro registou-se um momento de tensão que culminou com a interrupção do diálogo, relatando ainda alegadas agressões verbais.

A agência Lusa tentou contactar a administração municipal, sem sucesso.

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