Numa longa entrevista concedida à Rádio Essencial, a filha do antigo Presidente José Eduardo Santos abordou os processos judiciais que continua a enfrentar em Angola, a situação da Unitel, o futuro político do MPLA, a actuação da PGR e o clima de investimento no país.
Decisão sobre a Efacec reforça argumentos da defesa
A entrevista ocorreu semanas após o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 12 de Maio de 2026, que afastou alegações de fraude, abuso de direito, má-fé e ocultação de património relacionadas com a aquisição da Efacec.
Segundo Isabel dos Santos, trata-se da segunda decisão judicial em Portugal a concluir que não ficou demonstrado o uso de fundos públicos angolanos para financiar a sua participação na empresa portuguesa.
A empresária reiterou que o investimento foi realizado com capitais próprios e financiamento bancário, defendendo que a decisão confirma aquilo que sempre sustentou desde o início das investigações.
Nacionalização da Efacec continua no centro da disputa
Outro dos pontos destacados por Isabel dos Santos prende-se com a nacionalização da Efacec, decidida pelo Governo português em 2020.
Segundo a empresária, a ausência de qualquer indemnização aos accionistas teve consequências directas na capacidade das sociedades proprietárias da empresa honrarem os compromissos assumidos junto da banca.
A Efacec representava o principal activo das sociedades que contraíram os empréstimos para financiar a aquisição da participação maioritária na empresa portuguesa.
Com a nacionalização, argumenta Isabel dos Santos, esse activo deixou de integrar o património das sociedades devedoras.
“As sociedades accionistas da Efacec ficaram, assim, sem o activo e sem bens e, consequentemente, impedidas de pagar as dívidas bancárias”, sustenta.
A empresária considera que os activos que poderiam servir para reembolsar os financiamentos deixaram de existir após a intervenção do Estado português, dificultando a liquidação dos créditos reclamados pelos bancos.
Acusações à PGR e críticas ao Tribunal Supremo
Grande parte da entrevista centrou-se nos processos que continuam a correr termos em Angola.
A empresária afirmou continuar a responder a acusações relacionadas com a sua gestão da Sonangol, processo actualmente apreciado pelo Tribunal Supremo.
Segundo Isabel dos Santos, a PGR mantém acusações que considera falsas, particularmente no que respeita à contratação de consultoras internacionais como a Boston Consulting Group, a PwC e a VDA.
A empresária sustenta que existem provas documentais, testemunhais e financeiras que demonstram a efectiva prestação de serviços por parte dessas empresas durante a sua passagem pela petrolífera estatal.
Ao longo da entrevista, criticou duramente o funcionamento da justiça angolana, alegando que vários tribunais recusaram ouvir testemunhos e argumentos apresentados pela sua defesa.
Na sua opinião, essa situação compromete princípios fundamentais do Estado de Direito e enfraquece a confiança dos cidadãos nas instituições judiciais.
"Hoje posso ser eu. Amanhã poderá ser qualquer outro cidadão ou empresário", afirmou.
João Lourenço acusado de perseguição política
Questionada sobre a origem dos processos que enfrenta, Isabel dos Santos voltou a apontar directamente o Presidente João Lourenço como principal responsável pela situação.
A empresária considera que os acontecimentos dos últimos anos estão ligados à forma como o actual Chefe de Estado interpreta e exerce o poder.
Segundo afirmou, dificilmente os mesmos acontecimentos teriam ocorrido sob outra liderança política.
Isabel dos Santos afirmou sentir-se “decepcionada” com os quase dez anos de governação de João Lourenço, defendendo que o país poderia apresentar hoje indicadores económicos significativamente mais favoráveis.
Segundo a empresária, Angola enfrenta níveis elevados de desemprego, pobreza crescente, desvalorização do kwanza e uma acentuada perda do poder de compra das famílias. Na sua perspectiva, as políticas económicas implementadas pelo Executivo não produziram os resultados esperados e contribuíram para o agravamento das dificuldades enfrentadas pelos cidadãos.
“Esperava mais e melhor para o meu país”, declarou.
Isabel dos Santos associou ainda os processos a alegadas disputas internas no MPLA e ao contexto político que se seguiu ao fim da presidência de José Eduardo Santos.
Apesar das críticas, afirmou continuar a ser militante de base do MPLA, embora tenha admitido que não apoiará uma eventual continuidade da actual liderança do partido.
MPLA e eleições de 2027
A empresária defendeu a realização de um congresso aberto e competitivo no MPLA, considerando que a existência de múltiplas candidaturas fortalece o partido.
Questionada sobre possíveis apoios a futuros candidatos, recusou manifestar preferência por qualquer nome, afirmando que pretende avaliar os programas e propostas antes de tomar posição.
Segundo Isabel dos Santos, Angola necessita de uma nova visão económica e de uma estratégia mais clara para responder aos problemas do desemprego, da pobreza e da perda de poder de compra.
Manifestou ainda preocupação com alegadas dificuldades enfrentadas por alguns candidatos na recolha de assinaturas para o próximo congresso partidário.
“Que vença o melhor candidato, mas que todos possam concorrer em igualdade de circunstâncias”, afirmou.
Futuro político permanece em aberto
Questionada sobre uma eventual entrada na vida política activa, Isabel dos Santos voltou a afastar essa hipótese para o presente.
A empresária afirmou que nunca exerceu funções governativas e que a sua prioridade continua centrada na família e na resolução dos processos judiciais que enfrenta.
Ainda assim, não excluiu completamente essa possibilidade para o futuro.
“Se um dia tiver de servir Angola, servirei Angola”, declarou.
Legado de José Eduardo Santos
Ao longo da conversa, Isabel dos Santos abordou igualmente o legado político do seu pai, José Eduardo Santos.
A empresária considerou que o antigo Presidente desempenhou um papel determinante na consolidação da paz e na construção institucional de Angola, defendendo que o actual afastamento de vários membros da sua família da vida nacional deveria suscitar reflexão dentro do MPLA.
Segundo afirmou, o tratamento dado ao legado do antigo Chefe de Estado continua a influenciar parte do debate político angolano.
Fortuna construída ao longo de três décadas
Questionada sobre a origem da sua riqueza, Isabel dos Santos rejeitou a ideia de que o seu património tenha resultado exclusivamente da influência política da família.
A empresária defendeu que a sua trajectória empresarial começou muito antes de alcançar notoriedade internacional e destacou o papel do empreendedorismo na construção dos seus negócios.
Recordando a conhecida história da venda de ovos durante a infância, Isabel dos Santos explicou que cresceu num contexto marcado pela guerra e pelas dificuldades económicas, experiências que, segundo afirma, moldaram a sua visão empresarial.
A empresária destacou ainda o crescimento da Unitel, considerada um dos seus investimentos mais emblemáticos, referindo que o projecto começou em condições modestas antes de se transformar numa das maiores empresas de telecomunicações de Angola.
Rafael Marques volta a ser mencionado
Durante a entrevista, Isabel dos Santos fez referência ao jornalista e activista Rafael Marques, uma das vozes mais críticas do seu percurso empresarial.
Num tom descontraído, recordou as frequentes referências feitas por Rafael Marques à história dos ovos, reiterando que o episódio simboliza apenas a sua formação empreendedora e não a origem da sua fortuna.
A empresária insistiu que o seu património resulta de décadas de actividade empresarial, investimento e expansão de negócios em diversos sectores da economia.
Investimento, emprego e futuro
A empresária defendeu que as empresas que ajudou a criar contribuíram para a geração de milhares de empregos e para o crescimento económico do país.
Segundo Isabel dos Santos, muitos dos investimentos que pretendia realizar foram travados pelas restrições judiciais impostas nos últimos anos, o que, na sua perspectiva, representou uma perda de oportunidades para Angola.
Apesar das dificuldades, afirmou continuar ligada ao sector empresarial e interessada em projectos de formação, empreendedorismo e desenvolvimento económico.
Embora a decisão favorável relacionada com a Efacec tenha reforçado a sua posição em Portugal, Isabel dos Santos continua a enfrentar vários processos em Angola, alguns dos quais permanecem em diferentes fases processuais e poderão ainda conhecer novos desenvolvimentos no Tribunal Supremo.
Referências ao grupo Carrinho, Matapalo e Grupo Opaia
Durante a entrevista, Isabel dos Santos criticou ainda os planos de alienação de participações empresariais através do mercado de capitais, referindo especificamente o grupo Carrinho, o Matapalo e Grupo Opaia e outros grupos empresariais nacionais.
Segundo a empresária, a forma como determinados activos foram transferidos ou preparados para privatização levanta dúvidas sobre a transparência dos processos e contribui para aumentar a percepção de insegurança jurídica.
As declarações surgem num contexto de intenso debate sobre o papel do Estado na economia e sobre os programas de privatização implementados nos últimos anos.
Críticas à política fiscal e à AGT
Um dos principais alvos das críticas de Isabel dos Santos foi a política fiscal seguida pelo Governo. A empresária apontou a Administração Geral Tributária (AGT) como um dos organismos que, na sua opinião, tem contribuído para o aumento da pressão sobre o sector empresarial.
Recordando a sua oposição à introdução do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) à taxa de 14%, Isabel dos Santos defendeu uma redução substancial da carga fiscal aplicada às empresas, argumentando que os níveis actuais limitam a capacidade de investimento, inovação e criação de emprego.
Segundo afirmou, o crescimento económico sustentável depende sobretudo da capacidade do sector privado em gerar riqueza e oportunidades.
“O Estado não pode criar emprego para todos. Tem de ser o sector privado a investir, a produzir e a empregar”, sustentou.
A empresária considerou ainda que a excessiva burocracia, as inspeções frequentes e a multiplicação de exigências administrativas afastam investidores nacionais e estrangeiros.
Angola perdeu competitividade
Na avaliação de Isabel dos Santos, Angola tornou-se menos competitiva na corrida pela captação de investimento internacional.
Segundo explicou, investidores analisam factores como estabilidade jurídica, carga fiscal, eficiência administrativa e previsibilidade regulatória antes de decidirem onde aplicar os seus recursos financeiros.
Na sua visão, Angola apresenta actualmente desvantagens significativas face a outros mercados africanos, devido ao peso dos impostos e à complexidade dos processos administrativos.
“A melhoria do ambiente de negócios continua a ser mais discurso do que realidade”, afirmou.
“Não vou desistir de Angola”
Apesar de residir fora do país, Isabel dos Santos garantiu que mantém uma forte ligação a Angola e manifestou esperança de regressar futuramente.
Contudo, afirmou que actualmente não existem condições de segurança para o seu retorno, alegando continuar a ser alvo de perseguição política.
A empresária concluiu defendendo que a segurança jurídica, a protecção da propriedade privada e a independência das instituições são elementos essenciais para restaurar a confiança dos investidores e promover o desenvolvimento económico de Angola, concluiu.

