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Quarta, 30 Setembro 2026 10:27

Marcolino Moco alerta: “Estamos a poucos passos” de perder a esperança em Angola

Antigo primeiro-ministro e ex-secretário-geral do MPLA critica a “opacidade” dos mecanismos eleitorais, questiona a dinâmica interna do partido e defende um pacto de transição para evitar novos ciclos de ódio, rancor e vingança.

LUANDA — O antigo primeiro-ministro angolano e ex-secretário-geral do MPLA, Marcolino Moco, lançou um novo alerta sobre o momento político do país, defendendo maior transparência eleitoral e a construção de um pacto de transição capaz de evitar o ressurgimento de tensões e conflitos políticos.

Numa publicação na sua página, Moco afirma que Angola está “a poucos passos da secagem da última ponta da raiz da árvore de esperança” que, segundo a sua interpretação, o Presidente João Lourenço plantou nos corações dos angolanos a 26 de Setembro de 2017.

A declaração surge acompanhada de críticas à actual dinâmica política, tanto no interior do MPLA como no processo eleitoral, embora o antigo dirigente faça questão de esclarecer que não pretende transformar a sua intervenção num simples ataque aos seus antigos companheiros de partido.

Para o antigo primeiro-ministro, um dos principais problemas está relacionado com a transparência dos mecanismos eleitorais. Moco defende o afastamento daquilo que classifica como “opacidade dos mecanismos eleitorais de toda a natureza”, argumentando que estes factores são conhecidos por contribuir para situações de tensão antes e depois das eleições.

A preocupação surge associada à actual dinâmica política angolana, num período em que se aproxima um novo ciclo eleitoral e em que o debate sobre a organização interna dos partidos e os mecanismos de escolha das respectivas lideranças permanece relevante.

Na sua publicação, Moco afirma que, por um lado, há militantes do MPLA a quem estaria a ser negada a possibilidade de concorrer a uma liderança que, na sua leitura, deveria estar vaga. Por outro, refere a existência de “novos arranjos com antigos afastados”, que associa ao risco de reforço da opacidade eleitoral.

Perante este cenário, Marcolino Moco apresenta uma segunda proposta: a aprovação urgente de um pacto de transição. O objectivo, segundo explica, seria evitar que Angola volte a entrar num ciclo marcado por “ódios, rancores e vinganças”.

Moco defende que o país deve continuar a seguir a orientação de “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, mas sem interpretações que considera inadequadas. A proposta é apresentada como uma alternativa à lógica de confrontação política e como uma forma de procurar consensos num país cuja história recente foi marcada por conflitos e profundas divisões.

Para sustentar a necessidade de um entendimento mais amplo, Moco cita experiências anteriores de diálogo nacional. Entre elas, refere o chamado Congresso da Nação, realizado em 2022, e o Congresso Nacional da Reconciliação promovido pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), em 2025.

Na perspectiva do antigo dirigente, as discussões realizadas nesses espaços já permitiram reunir propostas que poderiam contribuir para a construção de um entendimento nacional. A ideia central passa por aproveitar o que já foi discutido em diferentes sectores da sociedade, em vez de permitir que divergências políticas conduzam novamente a confrontos.

O alerta contra o regresso à lógica da força

Na parte mais contundente da sua intervenção, Moco alerta para o perigo de Angola voltar a ser influenciada por discursos associados à conquista do poder através da força.

O antigo primeiro-ministro refere os “atávicos slogans” segundo os quais “o poder está na ponta dos fuzis” ou que o poder “não se entrega sem luta encarniçada”. Para Moco, ignorar os apelos ao diálogo que, segundo afirma, se fazem ouvir em diferentes sectores da sociedade angolana poderá ter consequências prolongadas.

“Não discutir e nem sequer ouvir este conselho [...] é condenarmo-nos a uma eternidade desassossegada”

O alerta, acrescenta, não diz respeito apenas aos actuais governantes. As consequências de uma eventual incapacidade de encontrar soluções políticas poderiam, na sua perspectiva, prolongar-se para as gerações seguintes.

A intervenção de Marcolino Moco assume particular relevância pelo seu percurso político. Antigo primeiro-ministro de Angola e antigo secretário-geral do MPLA, Moco pertence a uma geração de dirigentes que acompanhou diferentes fases da história política do país, desde os anos de conflito até ao período de paz.

O seu posicionamento combina, por isso, uma crítica à actual realidade política com um apelo à preservação da paz e à procura de mecanismos de diálogo. Longe de defender uma ruptura, Moco propõe mudanças nos mecanismos políticos e eleitorais e um entendimento que permita reduzir os factores de tensão.

O que Moco propõe: transparência eleitoral

Eliminar a “opacidade” dos mecanismos eleitorais e reduzir os factores de tensão pré e pós-eleitoral. Construir um entendimento político que impeça o regresso de ciclos de ódio, rancor e vingança. Aproveitar propostas já discutidas em iniciativas como o Congresso da Nação e o Congresso Nacional da Reconciliação da CEAST. Evitar o regresso de discursos que associem a disputa pelo poder à força ou à confrontação.

Na parte final da publicação, Marcolino Moco deixa uma das frases mais enigmáticas da sua intervenção. Depois de advertir para as consequências que uma “eternidade desassossegada” poderia ter também para os governantes e os seus descendentes, conclui: A frase encerra uma intervenção marcada por críticas, mas também por uma proposta de diálogo.

O antigo primeiro-ministro coloca assim no centro do debate três questões: transparência eleitoral, transição política e reconciliação nacional. Para Moco, o momento exige que essas questões sejam discutidas antes que a desconfiança volte a ocupar o espaço que, durante anos, Angola procurou reservar à paz e ao diálogo político.

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