Em relatos à Lusa, os populares agradecem a ajuda e as refeições que têm recebido, mas clamam por mais assistência num local onde até para dormir numa simples esteira "é preciso luta", uma pequena distração pode significar perder a tenda e se implora por uma banheira.
Catarina Domingas, moradora da Calomanga, um dos bairros mais atingidos pelas águas que invadiram Benguela devido ao rompimento de um dique, dorme agora ao relento, deixando aos dois filhos pequenos uma pequena tenda. Da casa, de onde apenas teve tempo para retirar as crianças não se aproveitou nada: "Tudo foi com a água".
Conta também que viu vizinhos a serem arrastados pelas águas e espera que o Governo ajude os desalojados com terrenos e "umas chapas" para poderem construir novas casas, mas queixa-se de que as doações não chegam às mãos de quem mais precisa e de que as autoridades apenas dizem para ter "calma".
Atália Ekele, do bairro Compão, também viu a sua casa ficar inundada e diz que as tendas não chegaram para todos, pedindo roupa para mudar a que traz no corpo e para os seus seis filhos.
"Só ontem consegui uma esteira para dormir e foi luta. Senhor governador, por favor, resolva o nosso problema", apela, pedindo um sítio para ficar.
Com um filho recém-nascido, João Capuço ficou sem a tenda que tinha conseguido quando foi com a mulher ao posto médico para dar à luz.
"Estou mesmo mal. Toda a casa da Calomanga desabou e ontem, por volta das 23:00, a minha esposa tinha de dar à luz. Chegámos aqui, onde deixámos a nossa tenda, e roubaram tudo", lamenta, dizendo que não tem hoje sítio para o bebé "fresco".
"Não temos mesmo nada. Queremos ajuda", apela.
Também Felícia do Carmo Cândido, outra desalojada da Calomanga, aproveita a presença da Lusa para desabafar, relatando que se viu obrigada a subir para o telhado durante as cheias de domingo, que atingiram com toda a força o bairro. "Só Jesus que estava do nosso lado", diz.
Pedindo, encarecidamente, aos governantes que olhem para "os mais velhos a chorar" e os "que não conseguem ir buscar comida", queixa-se de falta de organização, dizendo que nos bairros são os próprios moradores que "estão a tirar corpos" que ficaram na lama depois da descida das águas.
"O bairro está a cheirar mal porque nem um bombeiro está a ir lá resgatar. Os nossos irmãos é que estão a resgatar lá no bairro", lamenta, pedindo: "Façam qualquer coisa por nós".
As cheias de domingo resultaram do transbordo do rio Cavaco, após o rompimento de um dique de proteção, provocando inundações súbitas em vários bairros de Benguela. Segundo dados das autoridades, cerca de 8.000 pessoas ficaram desalojados, pelo menos oito morreram e outras 1.600 foram resgatadas, num cenário ainda em atualização.
Entre os sinistrados circulam equipas das autoridades angolanas, mas também elementos da sociedade civil que se voluntariaram para ajudar os mais necessitados a suprir necessidades prementes, desde escuteiros, responsáveis pela organização de cada "bairro" de tendas, a fiéis das igrejas e estudantes de medicina e psicologia.
Herineia Calanja, líder das mulheres da Igreja Adventista do Sétimo Dia, disse à Lusa que a instituição mantém três valências no recinto, situado no bairro dos Navegantes: assistência à saúde, apoio alimentar e doação de bens não perecíveis, para apoiar as famílias que estão desamparadas.
Alimentam mais de 500 pessoas por dia, numa cozinha comunitária que assegura três refeições diárias, e têm recebido no posto médico uma média de cerca de 60 pessoas por dia, queixando-se sobretudo de dores de barriga, tensão arterial alta e dores de cabeça.
A saúde mental é também uma preocupação para a estudante de psicologia Guilhermina Ventura, que vai circulando de megafone em punho, aconselhando as pessoas que "sentem o coração a bater muito rápido, uma dor de cabeça" a não hesitar em procurar ajuda, sublinhando que muitas estão a sofrer de ansiedade.
Mostrando-se comovida com a situação, diz que tem sido muito procurada e alerta que a ansiedade cria stress que "acaba por levar as pessoas ao hospital".
A cólera é outra das preocupações das autoridades angolanas, já que, apesar de existirem alguns WC, não são suficientes para atender à concentração humana, que vai espalhando lixo e fezes pelo recinto.
"Nós só queremos tomar banho", queixa-se Atália, acrescentando que "uns receberam banheiras, outros não receberam".
"Nunca tomámos banho desde domingo, estamos a cheirar mal, estamos a dormir no chão", revolta-se.
Felícia corrobora, indignada: "Meteram-nos num sítio onde não há tenda, onde há fezes, onde estão a cozinhar por cima das fezes. Nós não somos ratos, somos pessoas. Nós estamos cansados".

