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Quinta, 27 Agosto 2026 11:01

Adalberto Costa Júnior: “Nenhuma instituição do Estado está acima da dignidade cultural de um povo”

O presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, manifestou solidariedade à população Lunda-Ndembu, na localidade do Cazombo, província do Moxico-Leste, na sequência dos acontecimentos registados no passado dia 24.

Em declarações publicadas na sua página oficial, sob o título "Solidariedade ao Povo Lunda-Ndembu", o líder do maior partido da oposição angolana classificou a atuação policial como um erro grave, considerando que a corporação "não tinha o direito de se tornar protagonista de um conflito cultural e espiritual". Para Costa Júnior, cabe às autoridades "mediar, ouvir, respeitar e curvar-se" perante as tradições das comunidades, e não impor-se pela força.

"O que assistimos foi a surdez de um poder que confunde autoridade com brutalidade e que esqueceu que nenhuma instituição do Estado está acima da dignidade cultural de um povo", escreveu, acrescentando que "nenhuma lei escrita pode apagar a lei da terra".

O episódio em causa terá ocorrido durante as cerimónias fúnebres de uma autoridade tradicional da comunidade Lunda-Ndembu, que reuniram milhares de pessoas no Cazombo. Segundo o bispo da Diocese Católica do Luena, Dom Martín Lasarte Topolansky, que também se pronunciou sobre o caso, o confronto entre forças policiais e populares terá envolvido o funeral de um chefe tradicional de 96 anos, que juntou cerca de cinco mil pessoas, na sua maioria membros da comunidade Lunda-Ndembu. Segundo o prelado, apesar de não se terem registado vítimas mortais, o incidente abriu uma "ferida profunda" na relação entre a população local e as autoridades, ao ponto de, nas suas palavras, "a confiança do povo lunda no Governo angolano ter morrido".

Não é a primeira vez que o Cazombo, município fronteiriço com a Zâmbia e capital da recém-criada província do Moxico-Leste, é palco de tensões entre autoridades tradicionais e o poder instituído. A região, habitada sobretudo pelas etnias Chokwe, Luvale e Lunda-Ndembu, já conheceu episódios semelhantes no passado, nomeadamente em torno da forma como o Estado se relaciona com as autoridades tradicionais locais e com os seus ritos fúnebres.

Na sua mensagem, Adalberto Costa Júnior recorreu a um registo simbólico e ancestral para sublinhar a diferença entre poder político e autoridade tradicional. "O trono do governo é emprestado, mas o trono da tradição é eterno", escreveu, comparando os governos a "folhas ao vento" e o povo à "raiz da árvore" que resiste independentemente de quem ocupa o poder.

O líder da UNITA sublinhou ainda o significado simbólico da morte de um soberano tradicional, afirmando que a comunidade "não se despede apenas de um homem", mas de "uma memória, de uma linhagem e de um guardião dos valores transmitidos de geração em geração".

Costa Júnior terminou a sua mensagem com uma manifestação de proximidade à comunidade afetada, garantindo que o gesto não decorre de "cálculo político", mas de um "dever" de respeito pelas raízes culturais do país. "A UNITA permanece de pé, à sombra das nossas raízes, curvada diante do povo, porque é do povo que vem a nossa força e é para o povo que existimos. A terra guardará os seus, e a história julgará os que ousaram desonrá-la", concluiu.

As declarações do líder da UNITA surgem num contexto de tensão em torno de uma questão de natureza tradicional e cultural no Cazombo, colocando novamente em evidência o delicado equilíbrio entre a actuação das instituições do Estado e o respeito pelas autoridades e práticas tradicionais das comunidades angolanas.

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