Ora, é assim que vejo funcionar a arena de debate entre ideologias por cá. Ela se operacionaliza das seguintes formas.
— Nas referências bibliográficas e intelectuais. No caso, se és liberal não podes achar nada belo nos escritos socialistas ou marxistas e vice-versa. És pan-africanista, logo deves ter apenas referências intelectuais africanas ou que sejam descendentes do continente africano.
— Se és do partido da oposição, jamais deves reconhecer “como boa” alguma medida do Governo ou de outros opositores.
— Em função dos papéis e estatutos ideológicos, se entende como ético a não comunhão e solidariedade com aqueles que são do “contra” e que, por isso, disputam connosco.
Infelizmente há entre nós uma tendência para avaliar a validade de uma ideia não pela sua consistência argumentativa, fundamentação ou capacidade explicativa, mas pela identidade ideológica de quem a produz. Estamos vivendo de uma forma que a análise de quem se opõe a nós deve ser feita para subtrair alguma crítica que nesse sentido consolide as nossas bases e enfraquece as do oponente.
As nossas leituras e análises do discurso não estão, muitas vezes, preocupadas com a verdade. E como estamos numa época de pós-modernidade alicerçada na descrença da ideia de que a história caminha inevitavelmente para o progresso — e também em que tudo que é universal deve ser criticado — questiona-se assim o que venha a ser a verdade?! Contraditoriamente só a nossa é a VERDADE verdadeira.
Outrossim, para os defensores de suas orientações doutrinárias, é inconcebível e inaceitável que alguém que pertença ao seu núcleo possa tecer uma crítica pública, como se a ideologia tivesse uma bolha ou círculo dialógico que filtra e pondera as suas limitações, e desta forma, passa a ideia de que toda crítica que se pretende pública em debates ideológicos só pode ser feita para os opositores.
Historicamente não consigo determinar quando isso começou, mas tenho a plena certeza de que na Antiguidade, os filósofos não constituíam uma comunidade homogénea. Encontramos divergências entre Platão, Aristóteles, os sofistas, os estoicos, os epicuristas e os cépticos, na Modernidade, por sua vez, a refutação de teorias, a observação e a experimentação contribuíram decisivamente para o desenvolvimento científico, se não, jamais seria conhecimento científico. Na contemporaneidade, a crítica interna leva os membros em uma profunda melancolia como se tivessem sido traídos ou enganados por aqueles que “sempre amaram”. Ou seja, o mundo académico e ideológico transformou-se num espaço em que a comunhão na mesma bolha deveria servir para criar laços de irmandade e familiarismo acrítico e devotos às tradições epistemológicas da corrente defendida.
Compreendo que se compartilhe uma concepção idealizada, embora subjectivamente fundamentada, de como deveria ser o Mundo, construída por uma vanguarda de intelectuais cujos discursos assentam sobre cosmovisões que são desprovidas de neutralidade. Mas, proponho também, nesta minha reflexão, que levássemos em consideração que é possível defendermos as nossas causas reconhecendo as valências e os aspectos positivos dos outros.
É possível conviver verdadeiramente com aqueles que não têm a mesma matriz ideológica quando compreendemos que acima delas somos todos Humanos. Bem como reconhecer as nossas limitações, forças e fraquezas para que não pensemos que somos melhores que os outros e, talvez dessa mesma forma, compreendamos que o que nos falta está para além do que ideologicamente fomos condicionados a pensar.
Mateus Gomes Kuta — Estudante e Investigador (https://orcid.org/0009-0006-6498-3327)

