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Sexta, 08 Mai 2026 13:49

“Queriam transformar-me num Júlio Iglesias africano, mas escolhi cantar em quimbundo”, afirma Bonga

Mais de cinco décadas depois de iniciar uma carreira que ajudou a internacionalizar o semba e a música angolana, Bonga continua a afirmar-se como uma das vozes mais influentes da cultura africana contemporânea.

Numa longa conversa no podcast da BLITZ, o músico revisitou episódios marcantes da sua trajectória artística e política, falou sobre a independência de Angola, criticou as elites africanas e voltou a defender a preservação da identidade cultural angolana.

Nascido José Adelino Barceló de Carvalho, em Kipiri, Angola, Bonga recordou uma infância marcada pela forte convivência comunitária nos bairros populares de Luanda, sobretudo no Marçal, onde cresceu rodeado de música, solidariedade e tradições africanas.

“A minha geração não levava desaforo para casa”, afirmou, evocando um tempo em que, segundo descreve, predominavam o respeito comunitário e a entreajuda. “Uma senhora era agredida na rua e apareciam logo 10 homens. Quem batia ia sair dali torto”, acrescentou.

Ao longo da entrevista, o artista falou também da sua passagem pelo atletismo, modalidade na qual brilhou antes de se dedicar integralmente à música. Antigo atleta do Benfica, Bonga foi recordista dos 400 metros durante uma década, período em que conciliou o desporto com actividades ligadas à luta clandestina pela independência de Angola.

O músico explicou que aproveitava as deslocações internacionais enquanto atleta para transportar mensagens e informações relacionadas com os movimentos independentistas angolanos, numa época em que era seguido pela polícia política portuguesa.

Após fugir para Roterdão, nos Países Baixos, gravou em 1972 o histórico álbum “Angola 72”, considerado uma das obras mais emblemáticas da música de intervenção africana. O disco, registado em apenas um dia, acabou por transformar Bonga num dos rostos culturais da luta anti-colonial.

Durante o exílio em França, o artista conviveu com nomes históricos da música internacional, como Charles Aznavour, Miles Davis, Ornette Coleman e vários músicos brasileiros. Paris, recorda, era então o grande centro cultural da Europa.

Foi precisamente nesse período que enfrentou pressões da indústria musical para alterar o seu estilo artístico e tornar-se mais comercial. Bonga rejeitou categoricamente essa possibilidade.

“Queriam fazer de mim uma espécie de Júlio Iglesias africano. Recusei. Sempre quis cantar em quimbundo e manter a minha identidade”, declarou.

Apesar das críticas e das desilusões, o músico garante continuar fiel à identidade angolana que construiu ao longo de décadas. “Eu sou Angola”, resumiu.

O músico criticou igualmente aquilo que considera ser uma tendência histórica de descaracterização da música africana em nome do mercado internacional, recusando cantar em inglês, francês ou espanhol apenas para conquistar maior projecção comercial.

Ao abordar a situação política e social de Angola após a independência, Bonga mostrou-se particularmente crítico em relação à evolução do país nas últimas décadas. Sem esconder a desilusão, lamentou a persistência da pobreza, das desigualdades sociais e dos conflitos internos que marcaram a história angolana pós-independência.

O cantor recordou episódios traumáticos como o 27 de Maio de 1977 e criticou a instrumentalização ideológica que, segundo afirmou, afastou o país das reais necessidades da população.

“Inventaram marxismos, leninismos, socialismos científicos e esqueceram o povo”, declarou.

Embora sem citar directamente o MPLA, Bonga deixou críticas ao funcionamento das elites políticas africanas e à forma como muitos dirigentes permitiram que os recursos naturais do continente fossem explorados sem benefícios efectivos para as populações.

Para o artista, África continua excessivamente dependente de interesses externos ligados ao petróleo, diamantes e outros recursos estratégicos, enquanto persistem carências sociais profundas.

Ainda assim, o músico insiste numa visão assente na solidariedade, na consciência colectiva e na valorização cultural africana. Ao longo da conversa, defendeu maior união entre os povos africanos e criticou o enfraquecimento das relações comunitárias que marcaram gerações anteriores.

Hoje com mais de 80 anos e pai de gémeos nascidos recentemente, Bonga mantém-se activo artisticamente e continua a ser uma das principais referências da música africana lusófona no mundo. Entre memórias, críticas e reflexões sobre o futuro de Angola e de Africa, o cantor reafirma a coerência de um percurso construído entre a música, o exílio e a intervenção social.

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Last modified on Sexta, 08 Mai 2026 14:59

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