O ciclo começou sob forte otimismo — simbolizado pela chamada “Exoneração” e pela promessa de ruptura com práticas do passado — e evolui agora num cenário de desafios estruturais, inflação persistente, tensão social e maior competitividade política.
Combate à corrupção: marco histórico ou instrumento político?
O combate à corrupção foi o principal cartão de visita do primeiro mandato (2017-2022). A abertura de processos judiciais contra figuras anteriormente consideradas intocáveis alterou significativamente o cenário político angolano.
No entanto, sociólogos e analistas descrevem o processo, em parte, como uma “operação de charme” ou um combate seletivo, que teria sacrificado figuras de segunda linha para reforçar a imagem reformista sem alterar profundamente a estrutura de poder do partido governante.
Críticos apontam que figuras proeminentes da era anterior, como Manuel Vicente e generais de alto escalão, entre os quais “Kopelipa” e “Dino”, mantiveram inicialmente liberdade, alimentando alegações de seletividade e perseguição interna.
Por sua vez, João Lourenço e os seus apoiantes defendem que a luta contra a corrupção é imparcial e necessária para reformar o país, enfrentando o que classificam como uma “resistência organizada” de grupos que perderam privilégios acumulados ao longo de décadas.
Apesar das controvérsias, o Executivo conseguiu recuperar ativos e afastar figuras polémicas, produzindo uma mudança visível no ambiente político desde 2017. A interpretação do processo permanece dividida: para uns, trata-se de um marco histórico; para outros, de uma ferramenta de consolidação de poder.
Economia: recuperação moderada sob forte pressão
O balanço económico entre 2017 e 2026 é marcado por tentativas profundas de reforma, liberalização e diversificação, enfrentando simultaneamente choques externos e volatilidade dos preços do petróleo.
Após um período de contração severa entre 2016 e 2020, com média anual de -2,1%, a economia iniciou recuperação. Em 2024, o PIB cresceu 4,4%. Para 2026, projeta-se crescimento em torno de 3,5%, valor que, embora positivo, permanece próximo do crescimento populacional estimado em 3%, limitando ganhos reais per capita.
A inflação, fortemente influenciada pela desvalorização do kwanza e pela retirada de subsídios, atingiu cerca de 27,5% em 2024, recuou para 15,70% em 2025 e deverá situar-se em 13,5% em 2026, segundo estimativas do Banco Nacional de Angola (BNA). Ainda assim, setores como transportes continuam a registar aumentos expressivos, próximos de 19% no início de 2026.
O dinamismo recente tem sido impulsionado sobretudo pelos setores não petrolíferos — mineração, agricultura e comércio — embora o petróleo continue a base das receitas fiscais. A produção petrolífera enfrenta declínio, pressionando as contas públicas, ao mesmo tempo que novos investimentos, como a expansão da capacidade de refino no Lobito, procuram agregar valor à cadeia produtiva.
Privatizações e reformas estruturais
O Programa de Privatizações (PROPRIV) foi prorrogado até 2026. Desde 2019, Angola contratualizou cerca de 1,3 mil milhões de dólares em privatizações. O objetivo é reduzir o peso do Estado na economia e atrair capital privado.
A Sonangol integra o plano de reestruturação, enquanto a TAAG passou por mudanças estruturais importantes. Logo no início do mandato, a companhia aérea deixou de ser empresa pública para se tornar Sociedade Anónima (S.A.), abrindo caminho à entrada de capital privado.
Apesar de ter sido sinalizado o início da privatização da TAAG para 2026, o governo recuou no plano imediato, priorizando a consolidação operacional e financeira com apoio estatal direto.
Subsídios, austeridade e contestação social
A reforma dos subsídios aos combustíveis foi um dos pilares mais sensíveis da agenda económica, impulsionada também por recomendações do FMI.
Em junho de 2023, o preço da gasolina aumentou de 160 para 300 kwanzas por litro. O Executivo manteve inicialmente subsídios para taxistas e para o setor agrícola, mas estes foram sendo eliminados gradualmente. O fim total dos subsídios, especialmente ao gasóleo, foi adiado para 2028, após forte pressão social.
O argumento oficial sustenta que o modelo anterior beneficiava desproporcionalmente as classes mais favorecidas e incentivava o contrabando para países vizinhos. Contudo, as medidas de austeridade e o aumento do custo de vida desencadearam uma onda de protestos sem precedentes desde 2017.
O período de julho de 2025 foi particularmente tenso. Manifestações em Luanda e noutras províncias contra a subida dos combustíveis e da cesta básica resultaram em confrontos com forças de segurança. Relatos de organizações de direitos humanos e da imprensa indicam que a repressão deixou pelo menos 90 mortos, centenas de feridos e mais de 1.200 detidos.
A UNITA, por intermédio do deputado Joaquim Nafoia, afirmou que, desde 2017, mais de 360 pessoas terão morrido vítimas da atuação das forças de segurança, dados que classificou como “devidamente documentados”.
A ONU e outras entidades internacionais pediram investigações independentes sobre o uso de força letal durante os protestos.
Ativistas denunciam um endurecimento da repressão, com uso frequente de gás lacrimogéneo, munições reais e detenções consideradas arbitrárias.
Política e eleições: maioria reduzida
As eleições gerais de 24 de agosto de 2022 consolidaram a reeleição de João Lourenço, mas revelaram desgaste do partido governante.
O MPLA venceu com 51,17% dos votos — a margem mais estreita desde a independência, em 1975. A UNITA alcançou 43,95%, o seu melhor resultado histórico, vencendo em províncias estratégicas como Luanda.
Embora o MPLA tenha mantido maioria absoluta com 124 deputados, perdeu a maioria qualificada de dois terços, limitando a capacidade de aprovar alterações constitucionais sem diálogo parlamentar.
Política externa: projeção continental
Um dos pontos mais fortes do balanço é a política externa. João Lourenço consolidou Angola como mediador central em conflitos africanos, especialmente na região dos Grandes Lagos.
Em 2025, ao assumir a liderança da União Africana, elevou ao palco global temas como alterações climáticas, saúde pública e reformas das Nações Unidas. Essa projeção internacional reforçou a imagem de Angola como ator relevante na diplomacia africana.
Um país entre reformas e contestação
Em 2025, Angola ocupava a posição 148 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo o PNUD, registando ligeira melhoria. O discurso oficial mantém o foco na “melhoria das condições dos angolanos”.
Ainda assim, o país chega aos 50 anos de independência sob forte contestação social e política. Entre avanços institucionais, recuperação económica moderada e episódios de repressão e tensão social, o balanço da governação de João Lourenço permanece marcado por dualidades.
O futuro dependerá da capacidade de transformar estabilidade macroeconómica em progresso social tangível, reduzir desigualdades e reforçar a confiança nas instituições. A segunda metade da década coloca Angola perante um teste decisivo: consolidar reformas sem aprofundar fraturas sociais.

