Numa entrevista concedida ao jornalista Álvaro Mendes, no canal Bem Haja, o antigo membro do Comité Central afirmou estar preparado para uma reconciliação com João Lourenço e manifestou a intenção de regressar ao MPLA, depois de um período de afastamento marcado por críticas públicas ao presidente do partido e por um processo disciplinar que culminou na sua expulsão.
«Eu estou, sim, preparado para uma reconciliação com o Presidente João Lourenço e com o meu partido. Estou preparado, estou pronto», declarou.
O pedido de desculpas surge depois de o Tribunal Constitucional ter declarado inválido o relatório final do processo disciplinar instaurado contra Valdir Cónego, por violação do direito ao contraditório, determinando que o procedimento seja retomado na fase de apreciação da contestação apresentada pelo militante.
Cónego considerou a decisão um sinal de justiça e de respeito pelos princípios democráticos, mas reconheceu que, durante o conflito com a liderança do MPLA, recorreu a expressões ofensivas que hoje considera inadequadas.
«Eu falei muita verdade, sim, mas também fui muito ofensivo para o Presidente», admitiu.
Pedido de desculpas ao Presidente e à Primeira-Dama
Questionado por Álvaro Mendes sobre a possibilidade de pedir desculpas publicamente a João Lourenço e à Primeira-Dama, Valdir Cónego aproveitou a entrevista para dirigir um pedido de perdão ao casal presidencial, aos filhos e à restante família, estendendo-o à direcção do MPLA.
«Eu peço ao Presidente João Lourenço, à sua esposa, Primeira-Dama, aos seus filhos, peço desculpas públicas e perdão público», afirmou.
O militante justificou o gesto com uma reflexão pessoal sobre o seu comportamento e com os valores de educação e respeito pelos mais velhos que, segundo disse, recebeu da família. Na sua perspectiva, reconhecer os próprios erros não representa uma humilhação, mas uma demonstração de carácter.
«Só os fortes e os nobres reconhecem as falhas», declarou.
Cónego fez, contudo, uma distinção entre as críticas políticas que dirigiu ao partido e a forma como se expressou. Sustentou que as questões relacionadas com os estatutos, a democracia interna e a possibilidade de existirem várias candidaturas à liderança continuam a merecer discussão, mas reconheceu que o tom utilizado nas intervenções contra João Lourenço ultrapassou os limites que considera aceitáveis.
O militante afirmou que o período de silêncio lhe permitiu reflectir sobre o conflito e reconhecer que errou na maneira como se dirigiu ao líder do MPLA.
«Eu reconheço a minha falha. Eu errei ali», declarou.
«Ninguém me comprou», garante
A mudança de posição de Valdir Cónego, segundo relatou, gerou comentários nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, onde alguns utilizadores terão sugerido que o militante foi comprado ou pressionado para se aproximar novamente de João Lourenço.
Cónego rejeitou essas interpretações e garantiu que ninguém o contactou em nome do Presidente da República para o convencer a alterar o seu posicionamento.
«Ninguém me comprou. O Presidente João Lourenço não mandou ninguém para me comprar», afirmou.
O militante revelou ainda que já tinha escrito duas cartas ao chefe de Estado, embora, segundo disse, não tenha recebido resposta.
Para justificar o pedido de desculpas, invocou razões de consciência e de coerência pessoal, argumentando que não poderia promover valores como a ética, a moral, a educação e o civismo sem reconhecer os próprios erros.
Cónego manifestou também o desejo de ser recebido por João Lourenço, de voltar a abraçar os dirigentes do partido e de retomar o convívio com os seus camaradas.
«Gostava muito que o Presidente pudesse receber-me e ultrapassar isso tudo», afirmou.
O militante revelou, entretanto, que está a preparar um novo projecto centrado na cidadania, no civismo e na ética, que pretende anunciar em breve.
Tribunal Constitucional invalida relatório disciplinar
A decisão do Tribunal Constitucional constitui outro dos pontos centrais da entrevista. O acórdão declarou inválido o relatório final do processo disciplinar que levou à expulsão de Valdir Cónego, por violação do direito ao contraditório, e determinou a retoma do procedimento na fase de apreciação da contestação apresentada.
O militante manifestou satisfação com a decisão, considerando que esta demonstra a imparcialidade dos juízes conselheiros e o respeito pelos direitos de defesa. Durante a entrevista, agradeceu aos magistrados do Tribunal Constitucional e à presidente da instituição, Laurinda Prazeres.
«É um sinal de que realmente a justiça foi feita», afirmou.
Cónego contestou igualmente os argumentos utilizados pela Comissão de Disciplina, Ética e Auditoria do MPLA para não permitir, segundo a sua versão, o acompanhamento do seu advogado durante a audiência disciplinar. Na sua perspectiva, o direito de defesa não deve ser limitado por exigências internas relacionadas com a filiação partidária do defensor.
Apesar de considerar que a decisão judicial lhe foi favorável nesta fase, o militante rejeitou a ideia de ter vencido definitivamente o conflito com a direcção do partido.
«Eu não ganhei nenhuma causa», declarou, atribuindo a evolução do processo à sua fé religiosa e manifestando esperança de regressar ao MPLA de forma digna.
O acórdão não representa, por si só, uma reintegração automática nem resolve necessariamente todos os aspectos do conflito. O seu alcance, conforme descrito na entrevista, consiste na invalidação do relatório final e na determinação de que o procedimento disciplinar seja retomado na fase indicada pelo Tribunal Constitucional.
Valdir Cónego afirmou acreditar que a direcção do partido cumprirá a decisão e que será convocado nos próximos dias para dar seguimento ao processo.
«Eu penso que a direcção do partido só tem que seguir a orientação do Tribunal», declarou.
João Lourenço é o candidato legítimo, defende
A entrevista abordou igualmente a preparação do próximo Congresso Ordinário do MPLA, previsto para Dezembro, e a disputa pela liderança da organização.
Valdir Cónego defendeu que João Lourenço deve ser tratado como candidato legítimo à presidência do partido, mas rejeitou a designação de candidato único, argumentando que outros pré-candidatos poderão avançar caso cumpram os requisitos estatutários e eleitorais.
Segundo a interpretação apresentada pelo militante, a candidatura de João Lourenço já foi validada pela subcomissão de candidaturas, enquanto outros nomes referidos na conversa, entre os quais António Venâncio e José Carlos de Almeida, ainda teriam de cumprir formalidades para que as respectivas candidaturas fossem aprovadas.
«Não é candidato único. É candidato legítimo», sublinhou.
Sobre o processo relacionado com o general Higino Carneiro, cuja candidatura foi rejeitada pelos órgãos competentes do partido, Cónego afirmou que, de acordo com a sua leitura, o Tribunal Constitucional deu razão à direcção do MPLA. Admitiu que poderiam existir outros caminhos jurídicos, mas evitou aprofundar os detalhes do processo.
As afirmações sobre a situação dos pré-candidatos e os efeitos das decisões judiciais correspondem à interpretação apresentada por Valdir Cónego durante a entrevista.
Militante sustenta que João Lourenço poderá permanecer até 2028
Um dos momentos mais controversos da conversa surgiu quando Valdir Cónego apresentou a sua interpretação dos estatutos do MPLA sobre a duração dos mandatos dos órgãos do partido.
Invocando alterações estatutárias que, segundo afirmou, foram aprovadas em 2024, o militante sustentou que a retirada de uma disposição relativa ao cumprimento do mandato dos membros substituídos poderá ter implicações no cálculo do tempo de liderança de João Lourenço.
Na sua leitura, o actual presidente do MPLA poderá permanecer na liderança até 2028, completando o período de dez anos desde que assumiu o cargo, em 2018.
«De acordo com essa alteração do estatuto, neste momento, o Presidente João Lourenço tem mais dois anos do seu mandato», afirmou.
Cónego defendeu que essa interpretação não impede a apresentação de outras candidaturas no Congresso Ordinário. Na sua perspectiva, caberia à direcção esclarecer os militantes sobre o alcance das disposições estatutárias, sem impedir a discussão interna sobre a sucessão.
A interpretação apresentada durante a entrevista não foi acompanhada de uma análise jurídica independente que permita confirmar o alcance das alterações estatutárias referidas.
Espera regressar ao partido «pela porta da frente»
Valdir Cónego afirmou que pretende continuar ligado ao MPLA, rejeitando a possibilidade de abandonar a organização apesar do conflito com a liderança.
O militante sustentou que chegou ao Comité Central por mérito próprio e pela sua ligação às bases do partido. Disse ainda que não pretende transformar a decisão do Tribunal Constitucional numa oportunidade para alimentar novas disputas internas, defendendo que o processo disciplinar siga os trâmites determinados pela instância judicial.
Descreveu o período posterior à expulsão como uma fase de sofrimento, tristeza e humilhação, marcada pelo afastamento de alguns camaradas e pelas críticas recebidas nas redes sociais. Apesar disso, afirmou ter permanecido fiel ao MPLA e disse ter sido abordado para integrar projectos de outras formações políticas.
O seu objectivo, garantiu, é recuperar o lugar na organização e restabelecer as relações com os dirigentes partidários.
«Eu só sei que Deus quer e eu oro para isso, para que no futuro próximo eu possa voltar ao partido, ao meu partido, pela porta da frente», declarou.
A entrevista deixa, assim, dois sinais políticos: o reconhecimento público dos excessos cometidos contra João Lourenço e a expectativa de que a decisão do Tribunal Constitucional permita reabrir o caminho para o regresso de Valdir Cónego ao MPLA. A concretização desse objectivo dependerá, contudo, dos procedimentos subsequentes do processo disciplinar, das decisões dos órgãos competentes do partido e da evolução da relação entre o militante e a actual liderança.

