Os dois visados desempenharam funções de elevada sensibilidade no seio dos serviços secretos angolanos, tendo exercido os cargos de coordenador e coordenador-adjunto do Gabinete de Informações Estratégicas do SINSE, uma estrutura especializada em matérias de contra-espionagem, combate ao terrorismo, prevenção da subversão económica e financeira, assuntos políticos e relações internacionais.
Segundo informações recolhidas, o referido gabinete funcionou entre 2019 e 2022 e reportava directamente ao director-geral do SINSE, Fernando Garcia Miala, através de um alto oficial de inteligência identificado pelo nome de código “Ponto Focal”, considerado um dos homens de maior confiança da liderança da secreta angolana.
A estrutura operava a partir de um apartamento arrendado no condomínio Quinta Rosalinda, situado na zona do Futungo de Belas, defronte ao Centro Paz Flor, em Luanda. O imóvel teria um custo trimestral de cerca de 1.340.000 kwanzas.
Fontes próximas dos serviços de inteligência descrevem Paulo Guimarães e João Mateus como quadros “de confiança” da liderança do SINSE, destacados pelo zelo, patriotismo e dedicação demonstrados no cumprimento de várias missões consideradas sensíveis.
Contudo, a relação entre os dois operacionais e a direcção do SINSE terá sofrido um ponto de ruptura quando ambos solicitaram licença sem vencimento por tempo indeterminado e, posteriormente, passaram a integrar a estrutura política de apoio ao general Higino Carneiro.
“Estas são instituições com regras e códigos muito rígidos, onde facilmente se entra e dificilmente se sai. Esta dupla geriu dossiers extremamente sensíveis e teve acesso a informação privilegiada. O grande problema é o que sabem, o que podem fazer com essa informação e, sobretudo, quem servem agora”, afirmou um antigo operativo dos serviços secretos, sob condição de anonimato.
A mesma fonte sustenta que o actual desconforto no interior do SINSE resulta da aproximação dos dois antigos quadros ao projecto político de Higino Carneiro, figura que alguns sectores do poder consideram actualmente como um potencial adversário interno no seio do MPLA.
Em círculos políticos de Luanda, a iniciativa da PGR está já a ser interpretada como parte de uma estratégia destinada a desencorajar uma eventual candidatura de Higino Carneiro à liderança do MPLA, no congresso previsto para Dezembro de 2026.
Recorde-se que, no passado dia 13 de Maio, a Procuradoria-Geral da República reabriu igualmente um processo envolvendo o general Higino Carneiro, relacionado com alegadas irregularidades na utilização de viaturas durante o período em que exerceu funções como governador da província de Luanda, em 2017.
Segundo as acusações, as referidas viaturas terão sido utilizadas para apoiar actividades ligadas à campanha eleitoral de João Lourenço.
Até ao momento, nem a PGR nem o SINSE prestaram esclarecimentos públicos adicionais sobre o processo envolvendo Paulo Guimarães e João Mateus.

