Na verdade, o Governo tem prestado um desserviço ao propor discutir Angola através de narrativas descontroladas do ponto de vista económico-financeiro; tal facto gera controvérsias por não se centrar em dados concretos e verificáveis. Assim, os assuntos deixam de ser reais para se tornarem meras questiúnculas descartáveis, marcadas por um nível avaliativo extremamente baixo.
Apesar disso, importa não descurar que a fronteira entre indignação e inconformismo é deveras ténue. Por isso, a luta deve manter-se centrada numa mudança real e positiva. É fundamental mobilizar a sociedade civil organizada para que se junte a esta luta e demonstre a sua indignação face às políticas públicas frágeis do Governo liderado pelo Presidente João Lourenço.
O MPLA tornou-se, para muitos, um corpo estranho que corrói o potencial desenvolvimentista do país. Em suma, a sociedade terá de aprender a proteger-se das práticas nocivas emanadas pelo regime, avaliando cuidadosamente o risco que representa a continuidade da actual liderança na condução dos destinos desta terra martirizada, que tarda em afirmar-se como pátria de todos.
A angolanidade não pode continuar dependente da vontade de um único líder, nem deve permanecer oprimida por quem tem o dever de garantir a liberdade de todo o povo. É necessário reconhecer que Angola continua marcada por profundas contradições geopolíticas.
Em muitos casos, a direcção do MPLA e as suas organizações afins, como a OMA e a JMPLA, continuam a ser vistas como estruturas pouco renovadas, com défice de ideias capazes de impulsionar mudanças estruturais essenciais. O MPLA terá de fazer um esforço colectivo sério para promover reformas profundas, caso pretenda manter relevância no futuro político do país.
O cidadão angolano não deseja continuar refém de decisões superiores nem caminhar sob directrizes impostas. A maioria aspira a ser autora do seu próprio destino. Ninguém quer viver permanentemente condicionado pela vontade de terceiros.
Salvaguardando o direito individual de cada cidadão, importa sublinhar que a celebração da paz não pode ser meramente simbólica ou desconectada da realidade vivida pela população. O cidadão não deve permanecer alheio ao seu direito de viver em liberdade plena no seu próprio país.
O enquadramento securitário imposto pelo Estado, em vários casos, levanta dúvidas quanto à sua conformidade com os princípios constitucionais relativos à paz e às liberdades fundamentais. Qualquer observador atento perceberá que a paz proclamada pelo regime convive com sinais preocupantes de tensão e limitação de direitos. Coloca-se, então, a questão: que paz é esta que se pretende apresentar ao país?
Angola enfrenta desafios profundos, incluindo a influência de interesses externos na economia, num contexto em que sectores estratégicos são fortemente condicionados por actores internacionais. As importações, embora necessárias, revelam-se muitas vezes desajustadas e concentradas, levantando preocupações sobre transparência e equidade.
Um país como Angola não pode permitir que práticas políticas ou comportamentos inadequados sejam normalizados como políticas de Estado. Da mesma forma, a paz não pode ser celebrada com ostentação, desligada das dificuldades reais enfrentadas pela maioria da população.
Que paz é esta em que há espaço para tensões políticas constantes, incluindo pressões sobre partidos da oposição como a UNITA? A convivência democrática exige equilíbrio, respeito institucional e igualdade de tratamento. Se, por um lado, determinadas manifestações são criticadas, por outro, situações semelhantes protagonizadas por outros actores políticos nem sempre recebem o mesmo tratamento. Essa dualidade fragiliza o Estado de direito.
O país não pode funcionar com regras selectivas — como um “semba de uma só nota”. Angola não é propriedade de nenhum partido político, nem pode ser reduzida a interesses de grupos específicos. A paz deve pertencer a todos os angolanos, que têm o direito de a viver e celebrar de forma livre e digna. Ela não se constrói com discursos alarmistas nem com retórica de confronto, mas sim com inclusão, justiça e respeito mútuo.
Estamos juntos.
Por Raúl Diniz

