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Sexta, 20 Março 2026 22:26

General Lukamba Gato relata bastidores dos contactos iniciais após cessar-fogo de 2002 (II)

O então comandante da UNITA, general Lukamba “Gato”, revelou detalhes de um encontro considerado determinante nos dias que antecederam o desfecho do conflito armado em Angola, ocorrido a 19 de março de 2002.

Foi antecedida por contactos entre oficiais de ambas as partes. Na manhã desse dia, Lukamba Gato recebeu, via rádio, uma mensagem do general Kamorteiro, dando conta da intenção do general Sachipengo Nunda de realizar uma visita nas horas seguintes. A comunicação surgiu após a deslocação, na véspera, dos generais Kalias e Samy às posições da UNITA.

Após consulta interna com vários quadros do movimento, entre os quais Dachala, Sakala, Blanche Vilongo, Vituzi, Kalulu e o coronel Mbala, foi dado parecer favorável à realização do encontro.

Por volta das 13h00, um helicóptero transportando o general Nunda, acompanhado pelos generais Samy e Kalias, aterrou no local. A reunião decorreu de imediato no chamado “Ojango”, onde as delegações discutiram o futuro do conflito.

De acordo com Lukamba Gato, o diálogo centrou-se na necessidade de retomar o processo de paz. Durante a conversa, o general Nunda questionou a recente reorganização das forças da UNITA, procurando compreender os seus objetivos estratégicos.

Em resposta, Lukamba Gato afirmou que a reestruturação visava preparar o movimento para qualquer eventualidade, seja a continuação da guerra ou a abertura de negociações. O general sublinhou ainda que um eventual processo negocial deveria envolver interlocutores livres de ambas as partes, e não prisioneiros, posição que reconheceu poder ser sensível para alguns dos presentes.

O general Nunda, por sua vez, esclareceu que não detinha mandato para negociar, limitando-se a recolher informações sobre a reorganização da UNITA.

Já no final do encontro, Lukamba Gato aproveitou a ocasião para solicitar apoio médico para o comandante Sakala, propondo a sua deslocação ao Luena para tratamento. A sugestão foi prontamente acolhida por Nunda, que também manifestou abertura para levar Lukamba Gato, caso este assim o desejasse.

O encontro terminou com um clima de cordialidade, marcado por abraços entre os participantes. O comandante Alcides Sakala acabou por embarcar no helicóptero, ainda que com alguma relutância.

Após a partida da delegação governamental, Lukamba Gato partilhou com os seus colaboradores três reflexões principais: a possibilidade de as suas declarações contribuírem para uma mudança na abordagem das autoridades; o risco de desconforto entre os generais presentes; e a expectativa de um novo contacto com o general Nunda, sinalizando que a iniciativa seguinte caberia ao Governo.

O episódio descrito insere-se no contexto dos acontecimentos que culminariam dias depois no fim formal da guerra civil angolana, com a assinatura dos acordos de paz.

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